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Duo Ouro Negro

Posted in Uncategorized by ghostalking on March 28, 2017

Versão revista e aumentada dos texto aqui publicados sobre o Duo Ouro Negro em PDF:

DUO OURO NEGRO 1959-2006

(clicar para visionar ou descarregar PDF)

(biografia e discografia completa)

 

 

Ouro Negro 1976-2006 / Um longo adeus

Posted in Uncategorized by ghostalking on February 2, 2017

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Anos Orfeu

Na ressaca da Revolução de Abril de 1974 e da Independência de Angola em Novembro de 1975, o duo vê terminada a sua ligação contratual à sua editora de sempre, a Valentim de Carvalho (inicialmente em representação da Columbia e, já em 1974, da EMI). O ano de 1976 surge como um ano de pausa nas edições discográficas, pondo fim a 13 anos de edições ininterruptas. Neste ano apenas sai em França uma derradeira e excelente compilação que junta temas de 1960 gravados com Sivuca com temas extraídos dos álbuns Mulowa Afrika, Blackground e Epopeia/Lamento do Rei -estes dois últimos nunca lançados em França. É ainda no final desse mesmo ano que Milo McMahon abre o seu HIT-Pub (localizado no Bairro das Estacas em Lisboa, hoje ocupado pelo Bar Fadariu’s), que será o ponto de encontro de músicos e amigos nos anos seguintes. 

 

Depois desta segunda pausa na carreira do grupo desde 1963, é na Orfeu de Arnaldo Trindade que voltam aos estúdios, lançando, em 1977, uma primeira amostra do seu próximo álbum com o single Mamã Esperança / Cipriano. No ano seguinte sai mais um single, curiosamente creditado apenas a Raul Indipwo, com os temas Ter Amigos é Fortuna / A bela da Fonte. Apenas em 1979 é finalmente lançado o LP ‘Lindeza!’, que fecha o seu alinhamento com estes quatro temas anteriormente editados nos singles (com Mamã Esperança numa nova versão). ‘Lindeza!’ é um disco sem um produtor creditado, mas com a gravação e misturas a cargo do calejado Moreno Pinto. Nos músicos mantém-se Zé Nabo no baixo, surgindo Mike Sergeant na guitarra, Mário Rui no violão, D’Jilá Jor na guitarra de 12 cordas e ainda José Cid no acordeão (no tema Quando Eu Voltar). A ficha técnica é incompleta e curiosamente o nome de Milo MacMahon não aparece sequer mencionado no disco, surgindo apenas na foto da capa.

 

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O álbum, marcado pela saudade de uma Angola mergulhada numa sangrenta guerra civil, é uma clara partida da sonoridade que vinha a ser desenvolvida nos álbuns mais conceptuais da década de 70, Blackground e Epopeia/Lamento do Rei, isto apesar de ser arrancar com uma sequência muito interessante -e de grande coerência formal- em grande parte do seu lado 1, desde a abertura com N’Gola 1483/Luanda em Novembro até Lindeza!. O resto do disco é um amontoar de canções de nível e estilos variáveis, contendo o famoso Vou Levar-te Comigo (a abrir o lado 2). Fica assim definitivamente encerrada a fase de experimentação do grupo, reduzidos também a uma escala mais local (a Orfeu não tem capacidade para que os seus discos sejam lançados no estrangeiro como tinha a Columbia-EMI). A referência a 1483  assinala o ano da chegada à foz do Rio Congo por Diogo Cão, no fundo, a chegada de Portugal àquilo que viria a ser Angola…

 N’Gola, 1483…
E no horizonte surgiu uma canôa gigantesca com velas brancas, que se aproxima veloz, cada vez mais, com o vento…
Era o Homem Branco que chegava; numa mão uma cruz, na outra uma espada. Nos olhos, um brilho estranho de espanto, de cobiça, de triunfo. Ao som dos Kissanges, marimbas e Txingufos, ele desembarcou, calçando os pés com terra negra.
Então N’Gola viu a sua terra esventrada gritar de dor e transformou-se. Viu seus filhos serem levados para outros mundos. Conheceu uma nova cultura, uma nova violência, a intolerância que se abatia sobre a sua terra.
N’Gola adormeceu um sono longo e agitado, cheia de vozes no peito, crescendo, crescendo tanto que, num alarido despertou… a a Voz dizia:
– Não durmas mais… Não durmas mais…
Era Novembro e as acacias vestiam-se de garrido vermelho.
O Sol vinha a nascer com um brilho novo, sobre a Terra perfumada de Tamarindo e Jambo…
Uma Lindeza.
[Raul Indipwo, 1979]

 

Na sequência deste LP, logo em 1980, surge um single com dois inéditos Luar da Lua Cheia / Amor de Mentira (aqui com direcção musical de Luis Pedro da Fonseca, fundador nesse mesmo ano dos Salada de Frutas), donde se destaca o mais dançante lado B.

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Os dois longa-duração com o selo Orfeu.

Depois deste período de tímida produção, o Duo Ouro Negro chega a 1981 com energias renovadas para um espectáculo no Teatro da Trindade, Império de Iemanjá (espectáculo que terá feito uma tour por outras cidades europeias como Paris). E é com um conjunto alargado de músicos que irão registar o novo duplo álbum Blackground nos estúdios da Rádio Triunfo (da editora Orfeu). Para além do Duo Ouro Negro, os músicos são Steve Neil (baixo), João Maló (guitarra solo), Emilio Robalo (piano), Zézé M’Gambi (Bateria), Terinho M’Umbanda (Órgão), Perikles (Flauta e Sax), o Grupo Raízes (Nelinho, Beto e Mindo nas percussões e Nelson no baixo), Lena d’Agua e Formiga (Coros) e um grupo de dançarinas (Nita, Nénéca, Nikóia, Záza, Izabel, Ivone, Elsa). Marcam ainda presença alguns músicos convidados como a sul africana Busi Mhlongo (no tema Aruanda), o liberiano Otongo Brawn (no tema Aruandaí) ou a guineense Ivette Mandinga. Apesar do título do disco e do texto do encarte (que reproduz o texto já publicado na reedição de 1974 do LP Blackground), musicalmente apenas 4 temas são recuperados do álbum de 1972 (Ondyaya, Yermanjá, Blackground e Amanhã). De resto são 11 temas totalmente novos que compõem o álbum, acompanhados ainda pela nova gravação de dois temas: Muamba, Banana e Cola (agora em português) e Suliram. O trabalho gráfico da Orfeu com os Duo Ouro Negro é muito pobre e executado com grande falta de cuidado. Na lista dos temas deste LP, por exemplo, falta listar um tema (Missanga), Luanda Vou aparece como Luanda Vova e outro tema aparece o título trocado (Missanga em vez de Suliram). Apesar disto, o duplo álbum, tem direito a uma ‘edição limitada’ com mais imagens no interior da capa de abrir.

 

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O álbum mostra o grupo com grande energia e a explorar todas as suas facetas, com espaço para se lançar em temas que cruzam descomplexadamente as tradições africanas com o funk, a soul ou o reggae. Do álbum são extraídos dois dos temas mais fortes para um single: Marmelada / Muamba, Banana e Cola, saindo já em 1982 uma reedição do LP Lindeza! e um último single pela Orfeu (Estou Pensando em Ti / Rapsódia Angolana), cujo lado b é ocupado por um medley que faz uma retrospectiva dos vários êxitos da carreira do grupo.

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Regresso impossível: Aos Nossos Amigos / Sô Santo

Com o fim da relação com a Orfeu, dá-se o regresso à EMI, onde é reeditado em 1982 o primeiro álbum de originais, Mulowa Afrika (com uma nova capa, a terceira das edições portuguesas desse disco). O ano de 1983 é novamente um ano de pausa, exceptuando o lançamento de mais uma compilação de êxitos, O Disco de Ouro. Em 1984 dá-se o regresso às edições de originais com o álbum Aos Nossos Amigos. No disco recuperam-se três temas anteriormente gravados pelo grupo: Ce Palmier (originalmente gravado num dos três EPs franceses doa anos 60), N’Zambi (originalmente gravado para um dos EPs do trio Ouro Negro) e Quando Cheguei ao Brasil (originalmente gravado para o LP Latino/Sob o Signo de Yemanjá, de 1969). A produção fica a cargo de Milo Mac Mahon com os arranjos de Mike Sergeant e o assinalável regresso ao Engenheiro de som que os tinha acompanhado desde a sua estréia discográfica, Hugo Ribeiro. O disco aponta baterias em várias direcções, conseguindo ainda alguns pontos altos, nomeadamente com os dois temas lançados em single Comboio Mala de Benguela/N’Zambi.

Apenas alguns meses depois do lançamento do disco, em Abril de 1985, morre Milo Mac Mahon, fechando-se a história do Duo Ouro Negro. Evitando baixar os braços, Raúl Indipwo, edita ainda em 1985, um primeiro single Meus Olhos Ficaram Mar/À Beira Mar. O seu nome artístico será agora Raul Ouro Negro e vestirá sempre de branco em sinal de luto pelo companheiro desaparecido. Em termos de lançamentos no anos de 1985, a Orfeu relança Vou Levar-te Comigo (em single) e a EMI relança Blackground (o LP sai com uma nova matriz, mas de resto praticamente igual à reedição de 1974).

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Em 1986 Raul Ouro Negro lança o seu primeiro álbum a solo, Sô Santo, voltando a usar músicos que o tinham acompanhado nos anos mais recentes. Apesar do discos não ser especialmente interessante, há alguns temas merecem destaque, como a abertura com Kalunga ou os três temas mais dançantes: Cidrália, Pensamento Voa e Totoritué (numa nova versão deste tema popular que o duo tinha lançado originalmente num single em 1973). O disco fecha com uma melancólica balada, Kassua, uma espécie de despedida de Raul Indipwo. Para a capa mais uma pintura do músico que se dedicava cada vez mais à pintura, A Minha Casa de Benguela.

 

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A Minha Casa de Benguela, pintura da capa de Sô Santo.

 

Epílogo: Meninos D’Oiro

Cinco anos depois deste último álbum, em 1991, Raul Indipwo ainda faz um derradeiro disco, Meninos D’Oiro. O disco editado pela Fundação Ouro Negro (em LP e CD) pretende precisamente divulgar o trabalho da fundação e para o gravar foram convidados alguns amigos do músico como Bonga, Celina Pereira ou Rui Veloso. O disco recupera para uma nova versão o tema Pajarito Mañanero de Latino/Sob o Signo de Yemanjá e fecha com o tema coral, Lunga pelos Afra Sound Stars. Na contracapa Raul aparece na companhia do seu famoso tigre bebé (cuja descendência ainda fará parte do Jardim Zoológico de Lisboa. Uma aparição do músico foi a comemoração dos 50 anos de carreira em Maio de 2005, acompanhado de Bonga, Marisa, Luís Represas e Pedro Jóia. Em Junho de 2006 fecha-se, com a morte de Raul Indipwo um dos capítulos mais enigmáticos e paradoxais da música popular portuguesa, africana, latina, enfim, a catalogação fácil nunca os conseguiu fechar em nenhuma fronteira.

Das inúmeras compilações que continuaram a sair durante as décadas de 1990 e 2000, destaque para duas. Em 1993, sai uma caixa bastante abrangente com 4 CDs (ou cassetes) editada pela Reader’s Digest, acompanhada por um texto sobre a história do grupo da autoria de Raul Indipwo que faz também a pintura da capa. Em 2010 uma ainda fundamental caixa também de 4 CDs onde se compilam grande parte dos temas mais interessantes editados em EP dos primeiros anos do grupo (colaborações com Sivuca e trabalhos em trio) e se editam pela primeira vez em CD praticamente o integral dos LPs Blackground e Epopeia/Lamento do Rei. Infelizmente que, por razões que a razão desconhece, se desperdiçou aqui a oportunidade de fazer um trabalho definitivo sobre os anos mais interessantes do grupo. Com o regresso do interesse no vinil haverá em 2017 mais uma reedição de Blackground (recuperando cuidadosamente todo o trabalho gráfico da edição original). Infelizmente continua muita coisa por escrever, por editar criteriosamente, e claro, por ouvir.

 

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Duo Ouro Negro 1976-1984
/ Discografia 7″

#38 KSAT 603 / 1977 Mamã Esperança / Cipriano+ [Orfeu]
#39 
KSAT 624 / 1978 Ter Amigos É Ter Fortuna+ / A Bela Da Fonte+* [Orfeu]
#40 
KSAT 683 / 1979 Luar Da Lua Cheia / Amor De Mentira [Orfeu]
#41 
TSAT 301 / 1981 Marmelada+ / Muamba, Banana E Cola+ [Orfeu]
#42 TSAT 319 / 1982 Estou Pensando Em Ti / Rapsódia Angolana [Orfeu]
#43 177 5057 / 1984 Comboio Mala De Benguela+ / N’Zambi+ [EMI]
#43 SINP 36 / 1985 Vou Levar-Te Comigo+ / Luar Da Lua Cheia++ [Orfeu]

/ Discografia Álbums

# 8E 068 40487 / 1979 O melhor do Duo Ouro Negro [EMI] (LP)
FPAT 6004 / 1979 Lindeza! [Orfeu] (LP/Cassete)
#
DASPEAT 401 / 1981 Blackground [Orfeu] (2xLP Especial / 2xLP / Cassete)
FP 6004 / 1982 Lindeza! [Orfeu] (LP / reedição)
#
2VCLP 10029 / 1982 Mulowa Afrika [VC] (LP / Cassete / reedição)
#
240 0041 / 1983 O Disco de Ouro [VC] (LP / reedição)
# 1 77 5101 / 1984 Aos Nossos Amigos [EMI] (LP)
#
794 6981 / 1990 O Melhor do Ouro Negro [EMI] (2xLP / CD)


Raúl Ouro Negro 1985-1991
/ Discografia 7″

#44 177 5657 / 1985 Meus Olhos Ficaram Mar / À Beira Mar [EMI]
#45 177 6167 / 1987 Os Olhos De Marylia+ / Kassua+ [EMI]

/ Discografia Álbums

117 76061 / 1986 Sô santo [EMI] (LP/CD**)
#
89 12 03 / 1991 Meninos D’Oiro [Fundação Ouro Negro] (LP/CD)

 

* Lançado apenas em nome de Raúl Indipwo.
** CD inclui os temas do single Meus Olhos Ficaram Mar / À Beira Mar.
+ versões idênticas às do álbum.
++ tema já lançado em single.

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Ouro Negro 1971-1975

Posted in Uncategorized by ghostalking on April 29, 2016

CORES

Depois das aventuras pelo novo mundo, o ano de 1970 é de relativa acalmia e preparação do próximo projecto de fôlego do Duo Ouro Negro. Nesta altura a importância dos EPs começa, em Portugal, a perder terreno para a dicotomia LP / Single, que irá marcar as décadas seguintes. É também uma altura de mudanças políticas com Marcelo Caetano a assumir o poder em finais de 1968 (a ilusão de alguma abertura é nos anos seguintes frustradas com o agudizar da guerra colonial, a manutenção da censura e das perseguições por motivos políticos e, por fim, com o abandono da ‘ala liberal’ da Assembleia Nacional). É neste contexto que o Duo Ouro Negro desenha o projecto conceptual Blackground, a ser cantado em português e em inglês.

 

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No verão de 1971 tem lugar o festival de Vilar de Mouros. Inédito em Portugal, o festival estende-se por vários fins de semana, com um fim de semana especialmente dedicado à nova música pop, com destaque para os cabeças de cartaz, Elton John e Manfred Mann. Curiosamente, ou talvez não, fruto dos habituais paradoxos de que a história do duo está recheada, não é neste fim de semana que o duo actua, mas sim, ocupando uma das noites do fim de semana seguinte, com Amália Rodrigues a actuar na seguinte. É assim na noite de 14 de Agosto de 1971 que sobem ao palco os 13 elementos que acompanham o duo nesta primeira apresentação de Blackground, um “espectáculo de duas horas, tendo por tema a apresentação da música angolana, até ao samba ao jazz aos blues.” (António Augusto Barge, revista Rádio & Televisão,  Agosto 1971). O espectáculo será ainda apresentado no Teatro S. Luis em Lisboa reunindo entre músicos, bailarinos e cantores, 35 pessoas (Raul Indipwo, Ouro Negro SRD, 1993).

Africa was unfruitful and dry and Iemenjá was born from the Gods. Iemanjá felt alone and the Gods gave her a son who was born from her navel and that son was called RIVER and the RIVER crossed Africa and it went to the Sea. He crossed the sea and, on the other side, opened his arms and formed other branches and each brach was a new son and each son had a new name: MISSOURI, MISSISSIPI, AMAZON, RIO DE LA PLATA, etc. From the first Tree born in Africa, a ashew-Tree, Iemanjá made a big canoe and put in it the voices of the KUANZA, CONGO, NIGER, ZAMBEZIE, LIMPÔPÔ, and she said: “This is your heart, my Son, and now you are the African Man.” And the RIVER went away singing and the voice was the faith, and the rhythm was the beating of the oars on the water and the SPIRIT was a big MARACA saying“Don’t forget your Blackground”, “Don’t forget your Blackground”, “Don’t forget your Blackground”.

[Raul Indipwo, Blackground / LP 8E 062 40 136, 1972]

 

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Alguns meses depois de Vilar de Mouros, é finalmente lançado o álbum com capa gatefold e um livreto com uma pequena biografia/discografia do grupo.  O álbum é praticamente todo escrito por Raul Indipwo (uma das excepções é N’Vula onde Vum Vum colabora com Milo MacMahon). Para além do trabalho de composição e arranjos, são também uma novidade os quatro músicos que acompanham o duo no disco: Adrien Ransy na bateria (músico belga de formação jazz, integrou entre 1958-1963 os The Cousins, vindo posteriormente para Portugal, integrando o Quinteto Académico de 1966 a 1968 e dos The Bridge em 1971 – um grupo com Kevin Hoidale, Jean Sarbib e Rão Kyao que actua em Vilar de Mouros e no Cascais Jazz desse ano); Terry James Thomas na guitarra (músico inglês, integrou os Objectivo em 1971-72, actuando em Vilar de Mouros e gravando o Single Out of the Drakness em 1972, antes de regressar a Inglaterra); Zé Nabo (músico incontornável, tinha já integrado os Dakota em 1965, Guitarras de Fogo, os Ekos em 1967 -com o pseudónimo Eddy Fróis-, os Showmen em 1968, os Objectivo em 1969-1972, e a Heavy Band 1971-1973, sendo que mais tarde irá colaborar com José Cid, Banda do Casaco, Rui Veloso, Salada de Frutas ou Jorge Palma entre outros); Kevin Watson Hoidale, orgão e piano em 3 temas (músico norte-americano, passou por Portugal e pelos Objectivo 1970-72, colaborando com o Grupo 5 em 1970 e com Paulo de Carvalho, 1971-1974).

A ilustração da capa é da autoria do artista angolano Eleutério Sanches (que assinará outras capas como a do LP Kualuka Kuetu de Bonga em 1981), irmão de Lilly Tchiumba (que já tinha colaborado no musical Rua D’Elisa do duo em 1967 e que lançará em 1975 um magnífico álbum). O álbum como trabalho mais arrojado e acompanhado nesse ano pelo lançamento no mercado de 3 EPs não muito interessantes (Romança da Rainha / Neusa / Hino à Paz), e pela edição do LP Africaníssimo, que recupera temas anteriormente editados, especialmente os gravados com Sivuca em 1960. Entretanto, aproveitando a nova fábrica da Valentim de Carvalho em Angola, são extraídos dois temas do álbum e lançados em 1972 no formato single (Amanhã/Napangula).

 

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Capitalizando o fundo de catálogo: Compilação Africaníssmo (LP, 1971), EP Kyrie – temas de Mulowa Afrika de 1967 (EP, 1972) e reedição da compilação de 1966, O Espectáculo é Ouro Negro (LP, 1972)

 

Devido a extensão do continente africano existem os mais variados aspectos das chamadas «civilizações» e costumes, que surpreendem a cada passo mesmo os que tenham tido já mais que um contacto com África ou até com africanos de regiões diferentes. Uma coisa é comum a todos dado que a progressão do homem africano, além de matemática e geométrica, comparativamente ao homem europeu, é rítmica e musical. O ritmo e a música são uma constante da vida africana, quer nos rituais religiosos, quer nos trabalhos de rotina ou ainda em todas as manifestações sociais colectivas. As chamadas «canções de trabalho» que os escravos cantavam nas colheitas de algodão na América do norte, ou nos engenhos de açúcar e nas roças da América do sul não são mais que canções de «coragem» e marcação do ritmo de trabalho colectivo que ainda hoje se pode ver em África nos «Espirituais», no «Gospel» e no «Soul music» vislumbra-se bem a música ritual religiosa africana, com todos os Orixás, Kalundús e Lembas levados para a América do Sul em Makumbas, Voodoo, Umbandas e manifestações religiosas similares. O Blue em África é chamado «Canção de choro», «Lamento» ou mais generalizadamente «Maracatu». Por isso, os estudos feitos por “Santana” e “Osibisa”, vem absolutamente ao encontro do nosso trabalho em Blackground n.° 1.

[Reedição de Blackground / LP 8E 048 40 308, 1974]

 

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Construção, com os Kalungas 4.

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Em 1972 surge uma nova gravação com Construção,  versão do tema de Chico Buarque, originalmente gravada no álbum homónimo de 1971. Neste disco o Duo Ouro Negro é acompanhado pelos Kalungas 4, grupo com quem vão gravar mais dois singles em 1973 (Luanda Luandense e Totoritué). Nos Kalungas 4 mantém-se Zé Nabo que já acompanhava o duo desde Blackground, juntando-se Ricardo Pellegrin na percussão (músico da Guiné-Bissau, irá posteriormente radicar-se no Canadá e usar o nome artístico, El Kady), Lopes Junior na guitarra (músico dos Ekos) e Eduardo Couto também nas guitarras. Em 1974 são reeditados com novas capas os dois álbuns de originais da banda gravados em Portugal, Mulowa Afrika e Blackground, num contexto de abrandamento das edições do grupo, ainda por cima paralelas a uma desinspirada participação no Festival da canção em Março de de 1974. E depois, é Abril.

 

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Pormenor da pintura de Raúl Indipwo para Epopeia:
A Baía de Luanda envolta num mar de petróleo, escravos e uma Mãe África?

Com o 25 de Abril o duo, que sempre tinha tentado estabelecer-se num plano internacional, uma espécie de cidadãos do mundo de matriz portuguesa com os pés em África, fica de repente numa terra de ninguém. É apenas em 1975, e já depois do lançamento de mais uma compilação de êxitos, que edita os dois discos que fecham o seu contrato com a EMI-Valentim de Carvalho. O LP lançado é mais um álbum conceptual, ou melhor, um álbum com duas faces temáticas: Epopeia (no lado A) e Lamento do Rei (no lado B). Musicalmente o acompanhamento é dos Kalungas 4.

EpopeiaLAMENTOcapa AllendeCAPA

O Rei está livre novamente. O seu reino liberto é mais contente do que o antigo reino escravizado. O Rei canta e seu canto segue no vento, como seguira antes seu lamento na revolta de um povo agrilhoado. Mas é preciso compreeender agora o termo exacto, a dimensão, a hora da força da canção. Porque não é um Rei que está cantando, é a África toda despertando como poder de Raça e de Nação!

[Lamento do Rei / LP 8E 054 40 353, 1975]

 

A capa de Epopeia mostra uma pintura de Raul Indipwo na linha estética e cromática já mostrada na reedição de Mulowa Afrika. Já a capa de Lamento do Rei (da autoria de António Villar de Souza) mostra um mapa de África como um tabuleiro de xadrez onde a um peão e uma rainha pretas se opõem três peças, uma cujo corpo é um cifrão (encimado por uma coroa) e outras duas encimadas por uma cruz e uma suástica, em mais uma alegoria à libertação dos povos africanos. O single, com o tema mais abertamente politizado do grupo (afinal estávamos em 1975 e tudo procurava ser abertamente politizado), é Poema para Allende, reflectindo mais uma vez as influências da América Latina. E fecha com Tentando ir mais Alto, numa espécie de epílogo para a fase mais arrojada e criativa da discografia do grupo.

 

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Duo Ouro Negro 1971-1975 / Discografia Portuguesa – 7″ (Columbia / EMI)

#28 8E 016 40 126 / 1971 Romança Da Rainha / Singing My Song / Estrada Da Vida
#29 
8E 016 40 127 / 1971 Neusa / Kangrima*** / Mana Fatita***
#30 
8E 016 40 137 / 1971 Hino À Paz / Rita Flor De Canela / Distância+
#31 
8E 016 40 145 / 1972 Amanhã** / Napangula**
#32 
8E 016 40 224 / 1972 Construção / Distância+ / Txizengué*
#33 
8E 016 40 225 / 1972 Kyrie* / Maria Provocação* / Afrika (Kaiábula)* / Kuemba Ritôko*
#34 
8E 016 40 289 / 1973 Tótóritué / Vou Indo Por Aí
#35 
8E 016 40 290 / 1973 Luanda Luandense / Kungenu / Kitari Kiamie
#36 
8E 016 40 311 / 1974 Bailia Dos Trovadores / Vamos Erguer A Vida
#37 
8E 016 40 352 / 1975 Poema Para Allende / Tentando Ir Mais Alto

* Temas retirados de Mulowa Afrika (1967)
** Temas retirados de Blackgrund (1971)
*** Temas retirados dos EPs com Sivuca (1960)
+ Tema editado nestes dois EPs

 

Duo Ouro Negro 1971-1975 / Discografia Portuguesa – LP’s (Columbia / EMI)

# 8E 062 40 129 / 1971 Africaníssimo (compilação)
# 8E 062 40 136 / 1971 Blackground
# 8E 046 40 226 / 1972 O Espectácuilo é Ouro Negro (compilação – reedição)
# 8E 048 40 307 / 1974 Mulowa Afrika (reedição)
# 8E 048 40 308 / 1974 Blackground (reedição)
# 8E 046 40 351 / 1975 O Melhor do Duo Ouro Negro (compilação)
# 8E 054 40 353 / 1975 Epopeia / Lamento do Rei
# 2C 064 40 410 / 1976 Ouro Negro (compilação / edição francesa)

Ouro Negro 1964-1970

Posted in Uncategorized by ghostalking on January 22, 2016

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Chez les Yé-yé
Apesar do colapso do Trio Ouro Negro em 1963, ano em que não editam nenhum disco, o regresso acontece logo no ano seguinte. E acontece no formato que se manterá até ao final da carreira do grupo, 20 anos depois: o Duo Ouro Negro. Em 1964 os dois primeiros EPs que lançam recorrem à mesma sessão fotográfica e mostram o duo como jovens estrelas pop de sabor veraneante! E não era para menos, está-se em pleno boom Yé-yé, ou seja com o rock ‘n’ roll a entrar em força, mesmo que através das suas derivações europeias, especialmente as francesas e italianas. Para reforçar esta colagem às novas sonoridades pop, o acompanhamento em 3 dos 4 EP’s lançados neste novo fôlego do grupo, é feito pelo Conjunto Mistério. Entre as várias versões que vão pontuando o repertório do grupo, surge uma pouco interessante adaptação de I Want to Hold Your Hand dos Beatles vertida para português (o original tinha sido recém lançada pelos fab four no final de 1963). Como curiosidade, a canção não surge creditada à dupla Lennon/McCartney, mas sim a Raul Indipwo. Paralelamente ao acompanhamento pelo conjunto mistério, repete-se e aprofunda-se a colaboração com Thilo Krasmann, um embaixador nesta altura das correntes mais tropicais neste país cinzento e triste. Correntes essas, muitas vezes associadas a estilos de dança específicos que passam pelo Cha cha cha, Twist, Surf, Jerk, Madison,… Tudo sonoridades com um grande impacto também em França e que só a partir de 1966 se desvanecerão com a afirmação global do pop-rock mais formatado de origem anglo-saxónica.

 

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Luanda

Coca-Cola na mesa. Luanda, 1964. Sessão fotográfica para os dois EPs do regresso com o Conjunto Mistério.

O último EP editado com o Conjunto Mistério tem, na sua capa as letras KWELA com o duo a formar os diferentes caracteres da denominação desta dança de origem sul africana, cuja musica o Duo Ouro Negro adaptou e lançou em nome próprio. E é paralelamente a este EP, que o Duo Ouro Negro torna mais sério o seu namoro com França e alcança algum sucesso com a tal Kwela, um pouco na linha dos já referidos sub-géneros de musica-danças que nessa altura conseguem furar o dinâmico mercado francês. A aposta em França passa pela edição local de diversos EPs (só entre 1965 e 1967 serão lançados 8 títulos pela Pathé Marconi), actuando o grupo no Olympia de Paris por diversas vezes nesses 3 anos. Os temas editados nesses EPs são os já editados em Portugal, à excepção de três discos. Serão estas das poucas gravações efectuadas no estrangeiro pelo duo, totalizando aqui um lote de 12 músicas originais nunca editadas em Portugal. Apenas dois temas, “N’Dôa” (um original de Raul Aires Peres) e “Cavaleiro Solitário” / “La Savanne” foram lançados nos dois países, mas em gravações diferentes.

 

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Duplamente brilhante: a capa do EP ‘Kwela’ (1965) e da revista ‘Álbum da Canção’ (Abril de 1967).

 

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Dançando a Kwela: Foto-instruções da contracapa do EP ‘La Kwela’ (França, 1965).

 

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Autografando a ‘Kwela’. Revista Notícias, 1965.

 

Fábrica de canções
Para além de tentarem o sucesso em França, os anos seguintes serão essencialmente dedicados ao lançamento de temas no formato mais popular em Portugal na altura, o EP de sete polegadas (entre 1966 e 1969 lançam 15 discos neste formato). Musicalmente abrem-se ainda mais os horizontes, apostando-se na variedade, sem grandes preocupações de coerência formal ou musical para cada disco. Uma espécie de tiro ao alvo, ou mais correctamente, de tiro ao êxito. Prosseguem ainda a afirmação da sua reputação internacional com espectáculos um pouco por todo o lado, acompanhados por mais lançamentos dos EPs gravados em Portugal noutros mercados, como o sul-africano (provavelmente a fornecer Angola e Moçambique), o alemão, o brasileiro, o espanhol ou o israelita.

 

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Verde e Amarelo: Fotografias da capa do EP ‘Está Chovendo Cá Fora’ (1968)

É um período menos interessante musicalmente, apesar da sua diversidade (até linguística, com temas em francês, italiano, inglês ou português do Brasil) muito por culpa dos arranjos (Orquestras de Jorge Machado, Thilo Krasmann e a partir de 1968 novamente Joaquim Luis Gomes). É também este o período dos Festivais, que funcionavam como o contexto ideal para quem se queria afirmar plenamente no mercado nacional. Os resultados das incursões no Festival da Canção são bastante desinteressantes, mas o Duo Ouro Negro participa no certame português em três edições, editando em cada edição os respectivos temas concorrentes em disco (em 1967, 1969 e 1974). Editam ainda em 1967 um EP alusivo à sua participação no II Festival Internacional da Canção do Rio de Janeiro. O Festival, onde se ouviu, por exemplo Carolina de Chico Buarque pela primeira vez, teve lugar em Outubro de 1967. Não terá corrido muito bem ao duo e este acabou no último lugar do certame internacional do festival. A partir de 1966 regravam e voltam a lançar alguns temas mais antigos com novos acompanhamento do Thilo’s Combo: Meadowlands (originalmente gravado com o Conjunto Mistério), Kurikutela (originalmente gravado com Sivuca), Palamie (originalmente gravado em trio, aqui surge com roupagens mais eléctricas) ou Garota (originalmente gravado com Joaquim Luis Gomes).

 

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Fotografia da capa do EP ‘Pata Pata’ com o Kissange em primeiro plano (1968)

 

Obras de Fôlego (Rua d’Iliza e Mulowa Afrika)

Apesar do grande ritmo de lançamentos e do sucesso popular, a ambição do Duo Ouro Negro faz com que este se aventure em projectos de maior fôlego e ambição artística. Primeiro com o musical, ou ‘opereta’ africana como lhe chama Raul Indipwo, Rua d’Eliza para a RTP. Um projecto em que participa Lilly Tchiumba (que irá participar também no Festival da Canção de 1969) e os Sheiks (formação com Paulo de Carvalho, Fernando Chaby, Carlos Mendes e Edmundo Silva). O tema central a partir do qual toda a estória se constrói, é Iliza (Gomara Saia), que apesar de creditado apenas a Raul Indipwo, é uma adaptação de um tema tradicional de marrabenta moçambicana. Existe aliás uma versão com a voz de Rosa Tembe acompanhada pela Orquestra Djambu, no EP ‘Marrabenta’ editado pela Alvorada. O programa é transmitido pela RTP em 1968, sendo seleccionado para representar a televisão portuguesa no Festival de Milão.

 

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Rua d’Eliza (Duo Ouro Negro / Lilly Tchiumba / Sheiks), musical para a RTP.

Paralelamente gravam o seu primeiro álbum de originais, Mulowa Afrika. Até esta data, no formato LP, apenas tinham editado compilações de temas editados em 7″, como é o caso de “O Espectáculo é Ouro Negro” lançado entre o final de 1966 e o início de 1967 (será depois reeditado em 1972, com outra capa). Este primeiro álbum de estúdio possui uma grande coerência formal, com acompanhamento de Thilo Krassmann no contrabaixo, António Bastos na bateria, Gualdino Barros nos Bongos, José Luis Simões na guitarra portuguesa, sendo ainda reforçado pelo Coro Feminino da Emissora Nacional. O duo recorre, para além do violão, aos instrumentos tradicionais angolanos, como a Katxakata, o Kissange e o N’Goma. O LP é gravado em stereo, pelo incontornável Hugo Ribeiro, ainda uma relativa novidade em Portugal (a Columbia tinha iniciado em 1966 uma série de lançamentos em stereo, com o álbum “Conjunto Académico João Paulo no Teatro Monumental“, disco que juntava alguns temas já editados com outros inéditos). Sete dos 12 temas do LP são simultaneamente lançados em 3 EPs com outros temas, sendo inclusive o tema “Canção da Despedida” (o tema menos interessante e menos alinhado com o resto do álbum, baseada nma canção tradicional de Gôa) lançada em 2 EPs diferentes, isto tudo em 1967.

 

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O primeiro álbum de originais, Mulowa Afrika, 1967.

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Os instrumentos Kissange e Katxakata.

 

Os próprios artistas do Duo Ouro Negro consideraram este disco como o melhor da sua carreira, tanto nas canções folk, como nos arranjos das outras canções religiosas, das quais destacamos Kyrie e Kuemba Ritôko. Os artistas do Duo Ouro Negro gravaram várias vezes, sobrepondo as suas vozes para obter um coral masculino. Regravando também em sobreposição os instrumentos de percussão.
Kissange: Instrumento musical antigo usado pelos indígenas africanos, e é constituído por uma base em madeira de pau santo, uma barra com varetas de aço e uma cabaça que serve de caixa de ressonância. Toca-se com os dedos polegares e indicadores. Katxakata: Fruto africano chamado Maboke no qual depois de dissecado são introduzidas sementes de Toka. Tem o tamanho de uma bola vulgar de golf e é jogado de uma mão para a outra, conforme o ritmo.

[Contracapa / LP SPMX 5005, 1967]

Quando terminou o trabalho de recolha, composição, arranjo e gravação deste Mulowa Afrika, ficámos, além de satisfeitos com o trabalho, com o melhor disco que até então fizéramos, Assim, quando o mesmo foi editado em vários países não ficámos surpreendidos, por termos a consciência do valor que esse disco representava, não só para nós Ouro Negro, como para a música de Angola. Mulowa Afrika levou-nos aos Estados Unidos para uma série de 50 recitais em 20 estados, efectuados em Universidades, Teatros e até algumas Óperas. Os contactos que tivemos foram, além de maravilhosos sob o ponto de vista humano, decisivos para a nossa carreira internacional. Quando a United Artists lançou simultaneamente em New York, Chicago, San Francisco e St. Louis, Mulowa foi parar ao ‘Top Ten’ Americano (Kuemba Ritôko). Os críticos de música, entre eles a Billboard diziam que Mulowa era o melhor disco de música africana lançado nos Estados Unidos nos últimos 10 anos… Bem… talvez que hoje, esse disco possa ser apreciado por si numa dimensão maior. E com certeza nossa, você vai mesmo gostar, mais ainda se estiver dentro da etnografia africana. Entretanto adiantamos que Mulowa é o início de Blackground.

[Raul Indipwo, contracapa, reedição / LP 8E 048 40 307, 1974]

 

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Mulowa Afrika pelo mundo (Brasil, Israel, França, Estados Unidos).

Mulowa Afrika foi editado nos dois anos seguintes em diversos países: França (‘Afrika’, 1967), Brasil (‘Mulowa Afrika’, 1968), Israel (‘Mulowa Afrika’, 1968), Estados Unidos (‘The Music of Afrika Today’, 1969). Terá ainda sido editado na Alemanha e na Argentina, sendo definitivamente o disco mais internacional do duo. Quanto a alguma mistura entre ficção e realidade nos textos sobre o grupo, tudo fazia parte da estratégia de promoção e alguma investigação tornará fácil descodificar a que realmente se referiam.

 

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Sessão fotográfica em Cascais aproveitada para várias capas: Valsa do Vaqueiro (1967) e Maria Rita (1969).

 

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O Galo de Barcelos de ‘Maria Rita’ era um dos muitos adereços criados para o filme ‘Hammerhead’, rodado em Cascais em 1967. 

 

Paragem por Buenos Aires
As viagens, os lançamentos e as atuações continuam até ao final da década, sendo um dos destinos, em 1969, Buenos Aires. Mantendo-se fieis ao elevado ritmo de trabalho, gravam rapidamente um pequeno álbum de originais em castelhano. Com 12 temas em pouco mais de 25 minutos, Latino está todo centrado nos ritmos latino-americanos. O acompanhamento é da Orquestra de Jorge Leone, sendo editado na Argentina em 1969 e posteriormente em Portugal sob o título Sob O Signo De Yemanjá, acompanhado pelo lançamento de uma selecção de 4 temas num EP, ‘El Fuego Compartido‘ (que curiosamente exclui o tema mais forte do álbum, Muamba, Banana y Cola).

 

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Em plena Avenida 9 de Julho, Buenos Aires, com os sacos da TAP debaixo do braço. Curiosamente, já na capa de Mulowa Afrika aparecia o logotipo da TAP. 

Sob o Signo de Yemanjá (A deusa de todos os Mares. Foi nos braços de Yemanjá, que o ritmo Africano viajou para o Mundo).
O conteúdo deste disco foi forjado num “Churrasco” na quinta do director artístico da Odeon, J. A. Rota, nos arredores de Buenos Aires, quando da nossa estadia na Argentina. Falou-se de África, da Argentina e do que a raça negra trouxe às Américas. Ouvimos Yupanki (um dos maiores folcloristas e compositores argentinos) agora radicado em Paris. Falou-se do Malambo, do Merengue de Cumbia e outros ritmos oriundos de África. Surgiu então a ideia de um Afro-latino-americano. O resultado do “Churrasco” da sangria e do pôr do Sol, estão resumidos nas 12 faixas que vos oferecemos. Destacamos no entanto “Quando cheguei ao Brasil” canção que dedicamos ao primeiro homem negro que chegou à América do Sul. Agradecimentos a toda a juventude que se reuniu naquela tarde de sábado para nos ouvir falar da nossa terra. Abraços especiais a Kapustin e Derlis. A Marfil, esse Colombiano grandão, com ritmo dos pés à cabeça, neto de negro. A Toscano, Febo, Castellon, Loubet, Fernand e Casal o nosso obrigado pelas boas canções. A Yupanki a nossa admiração e respeito ante a sua imensa figura de grande poeta, compositor e sobretudo Argentino. À Argentina com o carinho que dois jovens estrangeiros podem dedicar a um grande e lindo país, dedicamos as nossa canções cantadas em Espanhol cheio de sotaque e de Amor.

[texto da contracapa do LP Columbia 8E 62 40 003, 1970]

Entretanto, com o fechar a década de 60 e com as novas experiências recolhidas um pouco por todo o mundo,  o Duo Ouro Negro prepara-se para se aventurar no seu trabalho de fôlego mais importante…

 

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daCapo

Duo Ouro Negro 1964-1970 / Discografia Portuguesa – EP’s (Columbia)

#09 SLEM 2170 / 1964 Dominique / Beija-Me / Hava Nagula / Agora Vou Ser Feliz
#10 SLEM 2183 / 1964 Cavaleiro Solitário / Amor Que Partiu / Popotitos / É Verão
#11 SLEM 2189 / 1964 La Mamma / Por Um Chamiço / Alucinado / Nós E O Amor
#12 SLEM 2196 / 1965 Meadowlands / M’Bube / N’Dôa / Mundo D’Iaxala
#13 SLEM 2239 / 1966 Au Revoir Silvye / Banana Boat / E Veio o Vento / Click Song
#14
SLEM 2240 / 1966 O Amor, O Sol E O Mar / Jikele Mauenhi / Garotas Do Porto / Menino De Braçanã
#15
SLEM 2241 / 1966 Dio Come Ti Amo / Kurikutela / Write Again / O Trem das Onze
#16 SLEM 2266 / 1967 Dia das Rosas / A Banda / Belucha / Canção da Despedida* 
#17 SLEM 2270 / 1967 Quando Amanhecer / Livro Sem Fim / Apenas Tu / Mundo Azul
#18 SLEM 2278 / 1967 La Mer Le Vent Le Sable / O Arrastão / Meadowlands
#19 SLEM 2287 / 1967 Kubatokuê Mulata / Palâmie* / Iliza (Gomara Saiá)*/ Maihêtso*
#20
 SLEM 2301 / 1968 Carolina Garota Timpanas Katéria
#21 
SLEM 2313 / 1968 En Suivant L´étoile / Upa Neguinho / Pata Pata / Rita Flor Da Canela
#22
 45ML239 / 1968 Carnaval de Luanda / A Minha Mulata
#23 
SLEM 2327 / 1968 A Cave / Viver Sem Amor / Está Chovendo Cá Fora (Mangwene Npulele) / Barco Sem Rumo
#24 
SLEM 2340 / 1969 Tenho Amor Para Amar / Pobre Pierrot / Cantiga / Mais Uma Dor Mais Uma Canção
#25 
SLEM 2343 / 1969 Maria Rita / Nocturno / A Minha Mulata
#26 
8E 016 40 018 / 1969 Ela… Ela Já Esqueceu / Foste Minha um Verão / Talvez Te Dê uma Rosa / Nem o Cravo, Nem a Rosa
#27
8E 016 40 064 / 1970 El Fuego Compartido** / Henda Xala** / Quando Cheguei ao Brasil** / Zambi**

* Temas retirados de Mulowa Afrika / ** Temas retirados de Latino

 

Duo Ouro Negro 1964-1970 / Discografia Portuguesa – LP’s (Columbia)

# SPMX 5001 / 1966  O Espectáculo É Ouro Negro (compilação)
# SPMX 5005 / 1967  Mulowa Afrikaº
# DF 4393 / 1969 Latino / 8E 062 40 003 Sob O Signo De Yemenjá

º A Columbia alemã edita em 1968 uma compilação com a mesma capa da edição francesa de Mulowa Afrika.

 

Duo Ouro Negro 1964-1970 / EP’s franceses com gravações inéditas em Portugal

# ESRF 1 633 / 1965  La Kwela / La Kwela De L’Angola / Heno Vakwe /N’Doa
#
ESRF 1 669 / 1965 Ce Palmier / L’Ocean  / Seul dans Le Monde / La Savane
ESRF 1 856 / 1967 Si tu Revenais / Les Autres / Le Fleuve / Sur Le Chemin de ma Peine

 

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Ouro Negro 1959-1963

Posted in Books, Design, Music, Portugal, Records, Uncategorized by ghostalking on August 12, 2015

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Duo Ouro Negro
Um dos grupos portugueses mais populares de sempre, o Duo Ouro Negro tem uma longa história mas, apesar de existir inúmera informação dispersa sobre o grupo e as suas edições discográficas, muita da informação é incompleta ou incorrecta (mesmo nas edições oficiais do grupo em CD) ou está pouco sistematizada. No contexto actual, e apesar da maior circulação no mercado de segunda mão de cópias dos discos, continua por editar em digital, e de uma forma cuidada, a sua obra discográfica ou até análises sobra a mesma (fora de um contexto académico). Assim sendo, fica por agora publicado e público, este contributo para todos os que tropeçam na discografia do grupo.

A história musical do duo composto por Raul Aires Cruz (1933-2006) e Emílio Mac Mahon (1938-1985) começa com o seu reencontro em Uíge (então Vila Carmona) em 1956. Fruto de famílias mestiças, tinham-se já cruzado durante a infância em Sá da Bandeira (Lubango). A denominação Ouro Negro terá sido sugerida pela locutora de rádio Maria Lucília Dias numa analogia entre os músicos e tudo aquilo que é valioso e raro, num comentário a uma das suas primeiras actuações ao vivo. E é em Luanda, após uma actuação no Cinema Restauração (a sala de prestígio da cidade nesses anos e onde funciona hoje a Assembleia Nacional), que o empresário Ribeiro Belga os contrata para actuarem também em Lisboa, no Cinema Roma.

 

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As actuações do duo nesse ano de 1959 são um sucesso e é numa das sessões do cinema Roma que o incontornável Hugo Ribeiro os descobre, sendo que nesses anos o seu trabalho passa não só pelas gravações, mas também pela descobertas de potenciais estrelas para o catálogo do seu chefe, Rui Valentim de Carvalho. Faltava decidir qual o acompanhamento a dar aos dois músicos (nessa altura são comuns as ‘orquestras’ de acompanhamento aos interpretes). E é aqui que surge um brasileiro talentoso que estava em trânsito por Portugal com o seu grupo, mas que acabou por ficar alguns meses entre 1959 e 1960, por motivo provavelmente pouco musicais. É ele o talentoso multi-instrumentista Severino Dias de Oliveira (1930-2006), mais conhecido por Sivuca, que edita também nesse período dois discos (um deles com uma versão do tema O Lápis do Lopes de Mário Simões), e fará acompanhamento a alguns artistas (gravações do II Festival da Canção Portuguesa no Porto em Maio de 1960, por exemplo). Alguns dos temas gravados em nome próprio por Sivuca em Portugal, serão também lançados em LP pela Odeon brasileira sob o título Vê Se Gostas (em Portugal só muito no final da década de 1960 é que os LP’s se vão vulgarizar).

 

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Quanto ao Duo Ouro Negro, e para a sua estreia em disco, são então lançados em 1960, dois EP’s gravados com a orquestra e os arranjos do Sivuca para temas de folclore angolano. As capas em dourado e preto dão grande coerência a estes primeiros lançamentos, sendo para a capa do primeiro disco recuperada uma fotografia tirada numa sessão de estúdio ainda no Uíge em Angola. O texto, num tom bem paternalista (comum na música popular e no contexto colonial) apresenta assim o grupo na sua estreia:

Este simpático agrupamento angolano que, pode dizer-se, conquista agora o público metropolitano da mesma forma instantânea como já havia conquistado o de Angola é composto por dois jovens de cerca de vinte anos. Começaram a cantar de forma imprevista, durante uma festa. E pode dizer-se que o espanto dos ouvintes e amigos foi igual ao dos próprios cantores, de tal forma ficaram surpreendidos com a sua habilidade. Nasceu assim o mais conhecido dos conjuntos de Angola, cujas actuações são disputadas. Eis o seu primeiro disco, primeiro degrau de uma consagração inteiramente merecida.
Muxima Terra de grande beleza entre Luanda e Malange à beira do rio Quanza, altar de Santa Ana (a mais milagreira do norte de Angola), Muxila (sic) é justamente um cântico de louvor a Santa Ana.
Mana Fatia Conta a história de uma vendedeira que por ser bonita e afável consegue ter sempre para vender as mais frescas hortaliças e frutas.
Kuricutéla História e reacções de um negro do interior que vê e anda de comboio pela primeira vez.
Tala On N’Bundo História de um preto esperto que quer jantar e beber vinho só por 5$00.

[texto da contracapa do EP Slem 2053, 1960]

Os temas incluídos nos dois primeiros EP’s do Duo Ouro Negro fruto deste encontro único com Sivuca, serão alvo de inúmeras reedições ao longo dos anos (capas onde o vermelho substitui o dourado, ou ainda utilizando outras fotografias e arranjos gráficos para manter a actualidade e potencial de venda destes discos. Para além das edições em EP, estes temas surgem ainda em inúmeras compilações, Tala On N’Bundo (LP, 1966), Africaníssimo (LP, 1971) ou Duo Ouro Negro com Sivuca (CD, 1998). Sendo de destacar aqui o LP Africaníssimo, claramente uma tentativa de explorar a associação a Sivuca, que prosseguia uma carreira de sucesso nos Estados Unidos à data do lançamento do LP (metade do disco compila aliás temas sem a presença do músico brasileiro).

 

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Depois deste auspicioso arranque lançam, em 1961, um EP com acompanhamento da orquestra de Joaquim Luís Gomes (1914-2009). São quatro baladas com orquestrações pesadas e desadequadas ao grupo, mas que mostram diversidade musical que o grupo irá ter ao longo dos anos, alternando momentos de grande qualidade com outros de grande dispersão e desinteresse, sempre na busca de sucesso e afirmação enquanto músicos e também compositores (talento que irá desapontar nos anos seguintes). Neste terceiro EP os músicos continuam em sintonia no guarda roupa (outra imagem de marca da época), usando como cenário as Quedas de Kalandula (denominadas na altura como Quedas do Duque de Bragança), localizadas no rio Lucala (afluente do rio Kwanza).

 

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O Trio
Com nova ida a Angola o grupo volta a surgir, não como um duo, mas reforçado com um novo acompanhante, José Alves Monteiro (Gin), passando a apresentar-se como um trio. A denominação será nesta fase apenas Ouro Negro, sendo usada pontualmente a designação Trio Ouro Negro. Vão lançar com esta formação um conjunto de 5 EP’s entre 1961 e 1962.

 

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A ambiguidade do grupo na sua relação com o poder reflete-se bem nestas cinco capas e respectivo conteúdo. Um conjunto de três das capas, apresenta várias imagens de uma mesma sessão fotográfica. O trio interpreta nestes discos temas de folclore angolano cantados em dialecto local e apresenta-se vestido com trajes exóticos aos olhos ocidentais, num cenário que simula a natureza sem intervenção humana (excepto na última das capas onde se percebe que estão num jardim!). Alternado o lançamento deste discos onde se exibe este exotismo para consumo ocidental (não esquecer que estão ainda em voga nos Estados Unidos e também na Europa dezenas de declinações musicais e gráficas de Exotica, como Yma Sumac ou Les Baxter) são lançados outros dois discos com com capas e conteúdo onde se quer transmitir uma imagem urbana e cosmopolita do grupo (para além do português, há aqui temas cantados em francês e espanhol). Estes dois discos usam fotografias de uma mesma sessão fotográfica realizada nos jardins da Praça do Império (construída em 1940), constituindo assim mais um paradoxo, provavelmente um pouco involuntário, dos muitos na história do grupo. Estes dois discos têm claramente um pendor mais pop, um deles de novo com a orquestra de Joaquim Luís Gomes (aqui com mais espaço para o grupo respirar), e outro com acompanhamento do mais inovador Thilo Krasmann (1933-2004) e o seu Thilo’s Combo, uma colaboração que virá a dar muitos mais frutos no futuro.

 

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Poucos conjuntos artísticos terão firmado tão rapidamente os seus créditos como o Trio Ouro Negro. Em menos de um ano, três rapazes vindos de Angola passaram do mais completo anonimato à posição de verdadeiras vedetas do music-hall português. Tal êxito torna-se ainda mais apreciável se verificarmos que foi conseguido com um reportório constituído quase exclusivamente por obras de folclore angolano, cantadas numa língua praticamente desconhecida da maioria do público… Vencendo uma nova etapa da sua carreira, o Trio Ouro Negro apresenta-se agora num disco que se concretiza, muito em especial pela variedade do seu reportório: duas canções (Garota e Sempre Só) são originais dos próprios artistas; a terceira, Uska Dara, é uma lindíssima melodia turca; por fim, a já clássica Mãe Preta, numa versão que nada tem a ver com as anteriores. Estes trunfos. aliados ao talento interpretativo do Trio Ouro Negro, são motivos de sobejo para se augurar a este novo disco uma carreira tão triunfal como a dos anteriores.

[texto da contracapa do EP Slem 2103, 1961]

 

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O Fim

Simultaneamente com todos estes lançamentos discográficos e com o arranque da carreira internacional do grupo, inicia-se a guerra em Angola (nos primeiros meses de 1961) e, apesar da relutância em terem qualquer conotação política, será eventualmente por razões políticas que o novo elemento do grupo desaparece -literalmente- de cena em 1963. Algumas das histórias que circulam referem pedidos de asilo à Holanda, fugas a salto para a Checoslováquia do outro lado da cortina de ferro ou traições dos colegas de grupo fruto de lutas de ego. O facto é que Gin não mais voltará a aparecer, e a sua saída é apenas uma das razões para a dissolução do grupo em 1963. Algo mais tinha mudado para além da multiplicação dos espectáculos, Milo MacMahon casa-se, e o desentendimento no seio do grupo é, segundo Raul Aires Peres, irreversível. Em 1963 não é editado nenhum disco do grupo e Raul Aires Peres decide lançar a sua carreira a solo com actuações em França, sob o nome artístico de Raul Indipwo.

 

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RTP
Interpretação do tema Txakuparika (editado no EP Slem 2117) numa actuação do Trio Ouro Negro na Feira Popular de Lisboa em 1963 (Arquivo RTP – Clicar na imagem para visionar)

 

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Discografia Ouro Negro 1959-1963 (Columbia)

#01 SLEM 2053 / 1960 Muxima / Mana Fatitia / Kurikutela / Talo On N’Bundo
#02 SLEM 2058 / 1960 Kangrima / Eh Sambá / Kabulo / Maria Candimba
#03 SLEM 2060 / 1961 Nostalgia / Luanda / Serenata a Luanda / Serenata do Adeus
#04 SLEM 2086 / 1961 Henduada Xala / N’Birin N’Birin / N’Zambi / Palamié

#05 SLEM 2087 / 1961 Rebita / Bessa N’Gana / Koronial / Ana N’Gola Dilenué
#06 SLEM 2103 / 1961 Garota / Uska Dara / Mãe Preta / Porque Estou Só
#07
SLEM 2117 / 1962 N’ Guina Kaiábula / Mariana / Txakuparika / Cidrálea
#08 SLEM 2118 / 1962 Cuando Calienta El Sol / Em Busca duns Olhos Verdes / Cavaleiros do Céu / Non, Je Ne Regrette Rien

Discografia Sivuca 1959-1960 (Parlophone)

#01 45PM124 / O Lápis do Lópes / Rosinha
#02 LMEP 1089 / Praia da Nazaré / Apanhei-te Cavaquinho / Guriatã de Coqueiro / Cidade Maravilhosa

 

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Referências / Fontes principais
Bandas Míticas #09 – Duo Ouro Negro por David Ferreira (Levoir/CM, 2011)
Biografia Duo Ouro Negro por Rui Cidra (Instituto Camões, consultado em 2015)
Blog Música Eléctrica a Preto e Branco (Blogspot, 2010-2015)
“Eles Tiraram Angola do Gueto” por  João Bonifácio (Público, Abril 2010)

#05 Almanaques

Posted in Books, Design, Uncategorized by ghostalking on April 7, 2014

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Apesar de ser presença obrigatória em qualquer estante, poderá haver sempre quem ainda não tenha todos os 18 números publicados entre 1959 e 1961. Cá está uma espécie de catálogo -ao estilo dos catálogos filatélicos- dos Almanaques (Capas de Sebastião Rodrigues e João Abel Manta nos últimos números).

ALMANAQUE 1-2

ALMANAQUE 3-4

ALMANAQUE 5-6

ALMANAQUE 7-8

ALMANAQUE 9-10

ALMANAQUE 11-12

ALMANAQUE 13-14

ALMANAQUE 15-16

ALMANAQUE 17-18

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Os dezoito almanaques

#01 Outubro 1959
#02 Novembro 1959
#03 Dezembro 1959
#04 Janeiro 1960
#05 Fevereiro 1960

#06 Março 1960
#07 
Abril 1960
#08 Maio 1960
#09 Junho 1960
#10 Julho 1960
#11 
Agosto 1960
#12 Setembro 1960
#13 
Outubro 1960
#14 Novembro 1960
#15 Dezembro 1960 / Janeiro 1961
#16 
Fevereiro 1961
#17 
Março 1960 / Abril 1961
#18 
Maio 1961


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#04 A Fada Oriana

Posted in Books, Design, Uncategorized by ghostalking on January 3, 2014

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Em 2012 a Porto Editora adquiriu os direitos da obra de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) e tem vindo a colocar em catálogo as suas obras. A poesia está a ser editada pela Assírio e Alvim e a prosa pela casa-mãe, a Porto Editora. A ideia será fazer alguns posts sobre alguns dos livros, especialmente os contos para crianças. Ao longo dos anos fora sendo reeditados e foram passando pelas mãos de vários ilustradores e ilustradoras. A Fada Oriana foi o primeiro livro que li dela e foi em 2013 (não foi o primeiro que ouvi, mas isso fica para outro post).

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1.ª Edição, 1958, Ática.

A Fada Oriana já passou por mais de trina e cinco edições, correspondendo a quatro ilustradores diferentes. A primeira edição de 1958  tem uma capa de Quito com uma pintura de Nuno de Siqueira, sendo ilustrada por Bió (segundo o Almanaque do Silva este é o pseudónimo de Isabel Maria Vaz Raposo). Na segunda edição, em 1964, as ilustrações de Bió tomam conta também da capa. Ainda pela mão da Ática, mas já no início da década de 1970, sai a 3.ª edição (esta versão do livro mantém-se até à 6.ª edição). As ilustrações são agora coloridas e da autoria de Luis Noronha da Costa.

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2.ª Edição, 1964, Ática.

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5.ª Edição, 1978, Ática.

Curioso o porquê das histórias para crianças e o seu contexto familiar, no que Teresa Andresen não foi um caso isolado:

Os meus contos para crianças surgiram (…) quando os meus filhos tiveram sarampo e tinham que estar quietos. Eu tinha que lhes contar histórias e comecei a ficar muito irritada com as histórias que lia. Primeiro com a linguagem sentimental, com a linguagem «ta-te-bi-ta-te», etc. Então comecei a contar histórias a partir de factos e lugares da minha infância (sobretudo lugares).

[in Entrevista com Eduardo Prado Coelho e Lúcia Garcia Marques, Revista ICALP, 1986
via site da Biblioteca Nacional de Portugal]

 

She [Judith Kerr’s daughter Tacy] loved stories, and Tom and I both made them up for her, and of course we went to the library, but the books for two-year-olds wewre disappointing. There seemed to be very little between the “here is a cow and here is a horse” kind and some long and not particularly interesting stories with a lot of unfamiliar words “to enrich your child’s vocabulary” they claimed. They had to be translated into simple (and sometimes better) words that Tacy knew; and by the time I had done that the potatoes I was cooking for supper had probably boiled dry.
(…)
I went to the zoo to draw tigers. It seemed simplest to base the family in the book on Tom, Tacy and myself and to give them our kitchen, and then I just plunged in. I got a lot of it wrong at the first go, so it needed redrawing, and the children caught measles, and had holidays and dentists’ appointments and tea parties, so it took me the best part of a year to get to the end.

[Judith Kerr on writing/drawing her first story, The Tiger  who came to Tea, in 1966
Judith Kerr’s Creatures, a celebration of her life and work, Harper Collins, 2013]

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5.ª Edição, 1978, Ática.

A partir da sétima edição (em 1982) o livro passa as ser editado pela Figueirinhas. As ilustrações são de Natividade Corrêa e o arranjo gráfico é de Armando Alves. É aliás Armando Alves que redesenha os então 6 livros infantis que Sophia de Mello Breyner tinha publicados e lhes dá grande coerência do ponto de vista do  design (formato, paginação, tipografia, guardas). Ao longo das dezenas de edições que esta versão teve foram surgindo pequenas alterações (como a própria dimensão, aumentando de 17cm. para 20cm.), com alguma desvirtuação da delicadeza inicial. Em 2012, pela Porto Editora, é Teresa Calem que contribui com as ilustrações (de novo mais explicitas e com menos espaço à imaginação), tudo num novo formato e numa nova colecção.

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15.ª Edição, Figueirinhas, 1992. / 34.ª Edição, Figueirinhas 2002.

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Edição de 2012, Porto Editora.

 

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Os sete contos para crianças

1958 A Menina do Mar
1958 A Fada Oriana
1959 A Noite de Natal
1964 O Cavaleiro da Dinamarca
1966 O Rapaz de Bronze
1968 A Floresta
1985 A Árvore

E ainda…
1965 
Os Três Reis do Oriente (originalmente não editado como um conto infantil)
2013 Os Ciganos (conto inacabado, completado em 2013 por Pedro Sousa Tavares)

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+ Leituras + Referências

Sophia de Mello Breyner Andresen @Biblioteca Nacional de Portugal
Sophia de Mello Breyner Andresen @Porto Editora
Judith Kerr The Tiger Who Came to Tea @BBCnews

#03 No princípio era o dicionário

Posted in Books, Design, Portugal by ghostalking on September 30, 2011


Sim, todos sabemos quer não há um sentido univoco numa tradução de um texto, mas… num país habitualmente pobre em tudo, mas rico em coleccionadores e especuladores (um dia destes valerá a pena voltar a esta dupla), é assinalável a criatividade posta nas multiplas traduções de algumas obras. Os direitos de autor (dos originais e das traduções), devem ter aqui uma palavra a dizer, mas estes dois exemplos fazem temer o pior sobre aquilo que inocentemente lemos.

Comprei este livro da Erica Jong há uns anos (havia um CD cujos textos eram dela, daí o nome familiar a valer o risco de gastar 1 euro num mau livro) e só recentemente o li (7 meses sem tv têm de começar a ter efeitos secundários). Aparentemente nada de revolucionário, numa narrativa pontuada por um humor bastante ácido sobre as relações e só o final me fez achar que a coisa seria vagamente feminista. Claro que, estando traduzido para português, não seria propriamente um livro obscuro, mas afinal era uma espécie de obra de referência do ‘género’. Passei os olhos por uns artigos da autora, mas parece ser tudo bastante mais desinteressante e redundante face ao ‘medo de voar’. Enfim, nem todos podemos morrer jovens e promissores.

Claro que o mais divertido foi encontrar uma primeira edição deste ‘Fear of Flying’ (1973) em português e perceber, logo no primeiro parágrafo, que passámos de 117 para 114 psicanalistas. E que a célebre  do livro “zipless fuck”, ainda mais dificuldades trouxe ao profissionais da tradução: “queca sem fecho” ou “pinocada sem fechos de correr”?


Sobre o Kafka já se devem ter feito todas as teses académicas possíveis e imaginárias, e foi, claro, uma referência para todas as gerações de adolescentes que desde os anos 50 aos anos 80, acordaram um dia em estado de angústia metamorfósica profunda. Aqui estamos perante ‘O Castelo’, romance nunca terminado mas redigido em 1922 e publicado numa primeira versão em 1926. Os problemas da tradução devem começar logo com o embate na riqueza da língua alemã, mas é sempre enigmático (uma metáfora subtil para o conteúdo do livro?), perceber se “Era já noite…” ou se “A noite já ia adiantada…” Enfim, nada que faça grande diferença ao senhor K. e a sua sorte, mas…

Mas o melhor da edição em livro de bolso não está na tradução, mas sim na antológica capa saída dos estúdios PEA (Publicações Europa América) nos anos 80. Um pleno de tipografia, ilustração, composição, enfim, a imagem fala por sí. Pena Franz Kafka não ter terminado a obra, criando o enigma do paradeiro do castelo voador.

O Castelo // Publicações Europa-América // Livros de bolso 193
Tradução Maria Helena Rodrigues de Carvalho // s/data (anos 80) // Capa Estúdios P.E.A.

O Castelo // Edição Livros do Brasil – Lisboa // Colecção Dois Mundos 91
Tradução Vinga Martins // s/data // Capa Infante do Carmo

Medo de Voar // Publicações Europa-América // Livros de bolso 577
Tradução Isabel Sequeira // 1994 // Capa Estúdios P.E.A.

A Caminho do Congresso dos Sonhos (Fear of Flying) // Liber
Tradução ? // Dez. 1977 // Capa João Salvador

#02 Casa Gulbenkian ~ Diálogo em discurso directo

Posted in Books, Music, Uncategorized by ghostalking on December 20, 2010

A programação de duas instituições de referência em catálogo.
Casa da Música e Fundação Calouste Gulbenkian.

Em diálogo. Porto e Lisboa. Porto em Lisboa. Lisboa no Porto.

Casa da Música 2011 [Dezembro 2010]
coordenação comunicação, marketing e vendas Gilda Veloso
gabinete de design  gráfico
André Cruz / Sara Westermann / Rafael Oliveira / João Santos

Gulbenkian Música 10/11 [Maio 2010]
consultadoria de comunicação Guta Moura Guedes
direcção criativa Ian Anerson / design e direcção de arte  The Designers Republic
design gráfico Margarida Vilhena / fotografia Augusto Brázio

+ Referências

Casa da Música
Fundação Calouste Gulbenkian

#01 Colecção “Os Livros das Três Abelhas”

Posted in Books, Portugal by ghostalking on December 12, 2010

Marco incontornável na introdução de novas linguagens no design de livros das décadas de 50 e 60, a colecção “Os Livros das Três Abelhas” continua a surpreender pela diversidade de qualidade das suas capas. Todo um universo a (re)descobrir.

Do baú sem fundo da edição de livros em Portugal começam a surgir algumas pistas sobre aquilo que de relevante se fez na segunda metade do século XX. A colecção “Os Livros das Três Abelhas” é um dos primeiros exemplos modernos da aposta do mercado editorial no formato dos livros de bolso. Fundada em 1949 por Victor Palla [1922-2006] e José Cardoso Pires [1925-1998] para a editorial Gleba (e depois para a Europa-América), a colecção afirma-se nas décadas de 50 e 60, num contexto onde a televisão dá os primeiros passos (a RTP inicia emissões regulares a partir de 1957), tem lugar a fraude eleitoral de Humberto Delgado (eleições de 1958), e, em 1961,  e estala a guerra colonial (cujo intensificar e arrastar vai levar à queda do regime em 1974).


Colecção Três Abelhas #08 / “Morte de Um Caixeiro Viajante” de Arthur Miller / 4a Edição, Maio 1963, PEA.
Capa de Figueiredo Sobral.

A opção ao nível das capas foi a de não terem qualquer abordagem sistemática (grelha, tipografia, cores). Sendo aquilo que as identificava o marcante  logótipo das três abelhas e a qualidade das ilustrações utilizadas. Espelha-se aqui aliás o conteúdo da própria colecção. As capas foram ilustradas pelo próprio Vitor Palla (de um modo mais intenso nos primeiros anos) e por inúmeros artistas plásticos e também pelo incansável Sebastião Rodrigues.


Colecção Três Abelhas #11 / “A Casa de Bernarda Alba” de Frederico García Lorca / 2a Edição, Out. 1957, PEA.
Capa de Sebastião Rodrigues.

As três abelhas da Mocidade Portuguesa Feminina (Directoras de centro), seguido pelas três abelhas dos primeiros números da colecção (editorial Gleba) e as versões das três abelhas para as Publicações Europa-América.

O logotipo da colecção terá, segundo alguns rumores, surgido como uma sátira a um logotipo usado pela Mocidade Portuguesa Feminina. A sua presença, como marca, é aquilo que identifica a colecção, tendo evoluído de uma forma mais grosseira (nos títulos iniciais) para uma representação posterior mais apurada.

Em cima: Capas para a chancela Gleba, desenhadas por Vitor Palla (#03 #05 #07 #06)
Em Baixo: Capas para a chancela Europa-América (#16 #05 #01 #28).

Os exemplos de capas aqui ilustrados (de alguns dos primeiros de mais de 80 títulos publicados)  mostram bem a diversidade e qualidade das capas. Pela duração temporal da colecção e pelas reedições que foram feitas ao longo dos anos, as capa foram sendo redesenhadas. Aqui temos o exemplo da capa de “O Pão da Mentira” (#05), num desenho de Victor Palla, e a quarta edição de 1964, numa capa de Sebastião Rodrigues.

Quando entrei para a profissão fui para a APA. Aquele ano foi para mim muito intenso. Eu tentava absorver o mais possível. Foi num período em que apareceu um grupo liderado pelo Victor Palla, que fez a grande rotura entre as antigas capas de livro, e as novas feitas pelo Victor Palla. E eu admirava muito o Victor Palla. O Victor Palla era do grupo neo-realista de raiz americana,  e foi das pessoas que mais me influenciou, tanto no aspecto formal como na própria mensagem e grafismo.”

[in Entrevista com Maria Teresa e Victor Manaças, 1986
Reproduzida em «Sebastião Rodrigues • Designer» FCG, 1995]

Já no início da década de 70, surge a mais popular colecção portuguesa de Livros de bolso, a colecção Biblioteca Básica Verbo – Livros RTP (Editorial Verbo, 1970-1972). Um dos factores desse sucesso será a associação à RTP, e também, a marcante imagem criada por Sebastião Rodrigues. Com 100 títulos editados, é um monumental sucesso de vendas, com direito a armário próprio e tudo!

A colecção das três abelhas é nesta altura suplantada pela nova colecção de livros de bolso da Europa-America (onde surgem alguns dos mesmos títulos), cujos primeiros 50 números são bastante interessantes do ponto de vista do design das suas capas.

A esse propósito contava como avançara para os livros de bolso, com a colecção das “3 Abelhas” e viu que a Verbo lhe queria tolher o caminho, conseguindo através de apoio estatal, que a RTP fizesse a promoção das suas edições com anúncios publicitários repetidos diariamente várias vezes.

Não tendo poder para combater tão pesado fogo de artilharia, [Lyon de Castro] resolveu usar de astúcia para com o leitor. Fazia um curto anúncio, mas usando como sinal de distinção a abertura da 5ª Sinfonia de Beethoven, que fora o indicativo da BBC durante a II Guerra Mundial. O título que inaugurava a colecção era “Os Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes. Resultou, o leitor a quem se dirigia percebeu a “piscadela de olho” e a colecção entrou no gosto do público.”

[in «O império da Publicações Europa-América» / António Melo, Jornal Público / 14.04.2004]

 

Lista dos primeiros 25 títulos publicados

01 “A um Deus Desconhecido” de John Steinbeck
02 “O navio dentro da Cidade” de André Kedros
03 “Histórias de Amor” de José Cardoso Pires (compulsivamente “fora do mercado”)
04 “A Cidade do Sossego” de Nicolau Gogol
05 “O Pão da Mentira” de Horace McCoy
06 “O Chapéu de três Bicos” de Pedro António de Alarcón
07 “O Fogo e as Cinzas” de Manuel da Fonseca
08 “Morte de Um Caixeiro Viajante” de Arthur Miller
09 “Os Homens e os Outros” de Elio Vittorini
10 “Se Todos os Homens Quisessem” de Jacques Rémy
11 “A Casa de Bernarda Alba” de Frederico García Lorca
12 “A Baleeira” de João Falcato
13 “O Músico Cego” de Vladimir Korolenko
14 “O Albergue Nocturno” de Máximo Gorki
15 “Fanga” de Alves Redol
16 “A Mãe” de Pearl Buck
17 “Uma Vida” de Guy de Maupassant
18 “Despedida Breve” de José Augusto França
19 “Pecado Mortal” de Mario Soldati
20 “Desejo sob os Ulmeiros” de Eugene O’Neill
21 “Melodia Interrompida” de Boris Pasternak
22 “A Mulher que viveu duas Vezes” de Pierre Boileau e Thomas Narcejac
23 “O Fazendeiro Aguilar” de Enrique Amorim
24 “A Rua do Gato que Pesca” de Yolanda Foldès
25 “O Gavião” de Gianna Manzini

 

+ Leituras + Referências

As escolhas de Jorge Silva Melo @Montag
As três abelhas da MPF @Frenesi
Victor Palla @Tipográfico
O Império das Publicações Europa-América @Público