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#03 No princípio era o dicionário

Posted in Books, Design, Portugal by ghostalking on September 30, 2011


Sim, todos sabemos quer não há um sentido univoco numa tradução de um texto, mas… num país habitualmente pobre em tudo, mas rico em coleccionadores e especuladores (um dia destes valerá a pena voltar a esta dupla), é assinalável a criatividade posta nas multiplas traduções de algumas obras. Os direitos de autor (dos originais e das traduções), devem ter aqui uma palavra a dizer, mas estes dois exemplos fazem temer o pior sobre aquilo que inocentemente lemos.

Comprei este livro da Erica Jong há uns anos (havia um CD cujos textos eram dela, daí o nome familiar a valer o risco de gastar 1 euro num mau livro) e só recentemente o li (7 meses sem tv têm de começar a ter efeitos secundários). Aparentemente nada de revolucionário, numa narrativa pontuada por um humor bastante ácido sobre as relações e só o final me fez achar que a coisa seria vagamente feminista. Claro que, estando traduzido para português, não seria propriamente um livro obscuro, mas afinal era uma espécie de obra de referência do ‘género’. Passei os olhos por uns artigos da autora, mas parece ser tudo bastante mais desinteressante e redundante face ao ‘medo de voar’. Enfim, nem todos podemos morrer jovens e promissores.

Claro que o mais divertido foi encontrar uma primeira edição deste ‘Fear of Flying’ (1973) em português e perceber, logo no primeiro parágrafo, que passámos de 117 para 114 psicanalistas. E que a célebre  do livro “zipless fuck”, ainda mais dificuldades trouxe ao profissionais da tradução: “queca sem fecho” ou “pinocada sem fechos de correr”?


Sobre o Kafka já se devem ter feito todas as teses académicas possíveis e imaginárias, e foi, claro, uma referência para todas as gerações de adolescentes que desde os anos 50 aos anos 80, acordaram um dia em estado de angústia metamorfósica profunda. Aqui estamos perante ‘O Castelo’, romance nunca terminado mas redigido em 1922 e publicado numa primeira versão em 1926. Os problemas da tradução devem começar logo com o embate na riqueza da língua alemã, mas é sempre enigmático (uma metáfora subtil para o conteúdo do livro?), perceber se “Era já noite…” ou se “A noite já ia adiantada…” Enfim, nada que faça grande diferença ao senhor K. e a sua sorte, mas…

Mas o melhor da edição em livro de bolso não está na tradução, mas sim na antológica capa saída dos estúdios PEA (Publicações Europa América) nos anos 80. Um pleno de tipografia, ilustração, composição, enfim, a imagem fala por sí. Pena Franz Kafka não ter terminado a obra, criando o enigma do paradeiro do castelo voador.

O Castelo // Publicações Europa-América // Livros de bolso 193
Tradução Maria Helena Rodrigues de Carvalho // s/data (anos 80) // Capa Estúdios P.E.A.

O Castelo // Edição Livros do Brasil – Lisboa // Colecção Dois Mundos 91
Tradução Vinga Martins // s/data // Capa Infante do Carmo

Medo de Voar // Publicações Europa-América // Livros de bolso 577
Tradução Isabel Sequeira // 1994 // Capa Estúdios P.E.A.

A Caminho do Congresso dos Sonhos (Fear of Flying) // Liber
Tradução ? // Dez. 1977 // Capa João Salvador

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