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Ouro Negro 1964-1970

Posted in Uncategorized by ghostalking on January 22, 2016

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Chez les Yé-yé
Apesar do colapso do Trio Ouro Negro em 1963, ano em que não editam nenhum disco, o regresso acontece logo no ano seguinte. E acontece no formato que se manterá até ao final da carreira do grupo, 20 anos depois: o Duo Ouro Negro. Em 1964 os dois primeiros EPs que lançam recorrem à mesma sessão fotográfica e mostram o duo como jovens estrelas pop de sabor veraneante! E não era para menos, está-se em pleno boom Yé-yé, ou seja com o rock ‘n’ roll a entrar em força, mesmo que através das suas derivações europeias, especialmente as francesas e italianas. Para reforçar esta colagem às novas sonoridades pop, o acompanhamento em 3 dos 4 EP’s lançados neste novo fôlego do grupo, é feito pelo Conjunto Mistério. Entre as várias versões que vão pontuando o repertório do grupo, surge uma pouco interessante adaptação de I Want to Hold Your Hand dos Beatles vertida para português (o original tinha sido recém lançada pelos fab four no final de 1963). Como curiosidade, a canção não surge creditada à dupla Lennon/McCartney, mas sim a Raul Indipwo. Paralelamente ao acompanhamento pelo conjunto mistério, repete-se e aprofunda-se a colaboração com Thilo Krasmann, um embaixador nesta altura das correntes mais tropicais neste país cinzento e triste. Correntes essas, muitas vezes associadas a estilos de dança específicos que passam pelo Cha cha cha, Twist, Surf, Jerk, Madison,… Tudo sonoridades com um grande impacto também em França e que só a partir de 1966 se desvanecerão com a afirmação global do pop-rock mais formatado de origem anglo-saxónica.

 

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Coca-Cola na mesa. Luanda, 1964. Sessão fotográfica para os dois EPs do regresso com o Conjunto Mistério.

O último EP editado com o Conjunto Mistério tem, na sua capa as letras KWELA com o duo a formar os diferentes caracteres da denominação desta dança de origem sul africana, cuja musica o Duo Ouro Negro adaptou e lançou em nome próprio. E é paralelamente a este EP, que o Duo Ouro Negro torna mais sério o seu namoro com França e alcança algum sucesso com a tal Kwela, um pouco na linha dos já referidos sub-géneros de musica-danças que nessa altura conseguem furar o dinâmico mercado francês. A aposta em França passa pela edição local de diversos EPs (só entre 1965 e 1967 serão lançados 8 títulos pela Pathé Marconi), actuando o grupo no Olympia de Paris por diversas vezes nesses 3 anos. Os temas editados nesses EPs são os já editados em Portugal, à excepção de três discos. Serão estas das poucas gravações efectuadas no estrangeiro pelo duo, totalizando aqui um lote de 12 músicas originais nunca editadas em Portugal. Apenas dois temas, “N’Dôa” (um original de Raul Aires Peres) e “Cavaleiro Solitário” / “La Savanne” foram lançados nos dois países, mas em gravações diferentes.

 

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Duplamente brilhante: a capa do EP ‘Kwela’ (1965) e da revista ‘Álbum da Canção’ (Abril de 1967).

 

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Dançando a Kwela: Foto-instruções da contracapa do EP ‘La Kwela’ (França, 1965).

 

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Autografando a ‘Kwela’. Revista Notícias, 1965.

 

Fábrica de canções
Para além de tentarem o sucesso em França, os anos seguintes serão essencialmente dedicados ao lançamento de temas no formato mais popular em Portugal na altura, o EP de sete polegadas (entre 1966 e 1969 lançam 15 discos neste formato). Musicalmente abrem-se ainda mais os horizontes, apostando-se na variedade, sem grandes preocupações de coerência formal ou musical para cada disco. Uma espécie de tiro ao alvo, ou mais correctamente, de tiro ao êxito. Prosseguem ainda a afirmação da sua reputação internacional com espectáculos um pouco por todo o lado, acompanhados por mais lançamentos dos EPs gravados em Portugal noutros mercados, como o sul-africano (provavelmente a fornecer Angola e Moçambique), o alemão, o brasileiro, o espanhol ou o israelita.

 

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Verde e Amarelo: Fotografias da capa do EP ‘Está Chovendo Cá Fora’ (1968)

É um período menos interessante musicalmente, apesar da sua diversidade (até linguística, com temas em francês, italiano, inglês ou português do Brasil) muito por culpa dos arranjos (Orquestras de Jorge Machado, Thilo Krasmann e a partir de 1968 novamente Joaquim Luis Gomes). É também este o período dos Festivais, que funcionavam como o contexto ideal para quem se queria afirmar plenamente no mercado nacional. Os resultados das incursões no Festival da Canção são bastante desinteressantes, mas o Duo Ouro Negro participa no certame português em três edições, editando em cada edição os respectivos temas concorrentes em disco (em 1967, 1969 e 1974). Editam ainda em 1967 um EP alusivo à sua participação no II Festival Internacional da Canção do Rio de Janeiro. O Festival, onde se ouviu, por exemplo Carolina de Chico Buarque pela primeira vez, teve lugar em Outubro de 1967. Não terá corrido muito bem ao duo e este acabou no último lugar do certame internacional do festival. A partir de 1966 regravam e voltam a lançar alguns temas mais antigos com novos acompanhamento do Thilo’s Combo: Meadowlands (originalmente gravado com o Conjunto Mistério), Kurikutela (originalmente gravado com Sivuca), Palamie (originalmente gravado em trio, aqui surge com roupagens mais eléctricas) ou Garota (originalmente gravado com Joaquim Luis Gomes).

 

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Fotografia da capa do EP ‘Pata Pata’ com o Kissange em primeiro plano (1968)

 

Obras de Fôlego (Rua d’Iliza e Mulowa Afrika)

Apesar do grande ritmo de lançamentos e do sucesso popular, a ambição do Duo Ouro Negro faz com que este se aventure em projectos de maior fôlego e ambição artística. Primeiro com o musical, ou ‘opereta’ africana como lhe chama Raul Indipwo, Rua d’Eliza para a RTP. Um projecto em que participa Lilly Tchiumba (que irá participar também no Festival da Canção de 1969) e os Sheiks (formação com Paulo de Carvalho, Fernando Chaby, Carlos Mendes e Edmundo Silva). O tema central a partir do qual toda a estória se constrói, é Iliza (Gomara Saia), que apesar de creditado apenas a Raul Indipwo, é uma adaptação de um tema tradicional de marrabenta moçambicana. Existe aliás uma versão com a voz de Rosa Tembe acompanhada pela Orquestra Djambu, no EP ‘Marrabenta’ editado pela Alvorada. O programa é transmitido pela RTP em 1968, sendo seleccionado para representar a televisão portuguesa no Festival de Milão.

 

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Rua d’Eliza (Duo Ouro Negro / Lilly Tchiumba / Sheiks), musical para a RTP.

Paralelamente gravam o seu primeiro álbum de originais, Mulowa Afrika. Até esta data, no formato LP, apenas tinham editado compilações de temas editados em 7″, como é o caso de “O Espectáculo é Ouro Negro” lançado entre o final de 1966 e o início de 1967 (será depois reeditado em 1972, com outra capa). Este primeiro álbum de estúdio possui uma grande coerência formal, com acompanhamento de Thilo Krassmann no contrabaixo, António Bastos na bateria, Gualdino Barros nos Bongos, José Luis Simões na guitarra portuguesa, sendo ainda reforçado pelo Coro Feminino da Emissora Nacional. O duo recorre, para além do violão, aos instrumentos tradicionais angolanos, como a Katxakata, o Kissange e o N’Goma. O LP é gravado em stereo, pelo incontornável Hugo Ribeiro, ainda uma relativa novidade em Portugal (a Columbia tinha iniciado em 1966 uma série de lançamentos em stereo, com o álbum “Conjunto Académico João Paulo no Teatro Monumental“, disco que juntava alguns temas já editados com outros inéditos). Sete dos 12 temas do LP são simultaneamente lançados em 3 EPs com outros temas, sendo inclusive o tema “Canção da Despedida” (o tema menos interessante e menos alinhado com o resto do álbum, baseada nma canção tradicional de Gôa) lançada em 2 EPs diferentes, isto tudo em 1967.

 

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O primeiro álbum de originais, Mulowa Afrika, 1967.

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Os instrumentos Kissange e Katxakata.

 

Os próprios artistas do Duo Ouro Negro consideraram este disco como o melhor da sua carreira, tanto nas canções folk, como nos arranjos das outras canções religiosas, das quais destacamos Kyrie e Kuemba Ritôko. Os artistas do Duo Ouro Negro gravaram várias vezes, sobrepondo as suas vozes para obter um coral masculino. Regravando também em sobreposição os instrumentos de percussão.
Kissange: Instrumento musical antigo usado pelos indígenas africanos, e é constituído por uma base em madeira de pau santo, uma barra com varetas de aço e uma cabaça que serve de caixa de ressonância. Toca-se com os dedos polegares e indicadores. Katxakata: Fruto africano chamado Maboke no qual depois de dissecado são introduzidas sementes de Toka. Tem o tamanho de uma bola vulgar de golf e é jogado de uma mão para a outra, conforme o ritmo.

[Contracapa / LP SPMX 5005, 1967]

Quando terminou o trabalho de recolha, composição, arranjo e gravação deste Mulowa Afrika, ficámos, além de satisfeitos com o trabalho, com o melhor disco que até então fizéramos, Assim, quando o mesmo foi editado em vários países não ficámos surpreendidos, por termos a consciência do valor que esse disco representava, não só para nós Ouro Negro, como para a música de Angola. Mulowa Afrika levou-nos aos Estados Unidos para uma série de 50 recitais em 20 estados, efectuados em Universidades, Teatros e até algumas Óperas. Os contactos que tivemos foram, além de maravilhosos sob o ponto de vista humano, decisivos para a nossa carreira internacional. Quando a United Artists lançou simultaneamente em New York, Chicago, San Francisco e St. Louis, Mulowa foi parar ao ‘Top Ten’ Americano (Kuemba Ritôko). Os críticos de música, entre eles a Billboard diziam que Mulowa era o melhor disco de música africana lançado nos Estados Unidos nos últimos 10 anos… Bem… talvez que hoje, esse disco possa ser apreciado por si numa dimensão maior. E com certeza nossa, você vai mesmo gostar, mais ainda se estiver dentro da etnografia africana. Entretanto adiantamos que Mulowa é o início de Blackground.

[Raul Indipwo, contracapa, reedição / LP 8E 048 40 307, 1974]

 

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Mulowa Afrika pelo mundo (Brasil, Israel, França, Estados Unidos).

Mulowa Afrika foi editado nos dois anos seguintes em diversos países: França (‘Afrika’, 1967), Brasil (‘Mulowa Afrika’, 1968), Israel (‘Mulowa Afrika’, 1968), Estados Unidos (‘The Music of Afrika Today’, 1969). Terá ainda sido editado na Alemanha e na Argentina, sendo definitivamente o disco mais internacional do duo. Quanto a alguma mistura entre ficção e realidade nos textos sobre o grupo, tudo fazia parte da estratégia de promoção e alguma investigação tornará fácil descodificar a que realmente se referiam.

 

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Sessão fotográfica em Cascais aproveitada para várias capas: Valsa do Vaqueiro (1967) e Maria Rita (1969).

 

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O Galo de Barcelos de ‘Maria Rita’ era um dos muitos adereços criados para o filme ‘Hammerhead’, rodado em Cascais em 1967. 

 

Paragem por Buenos Aires
As viagens, os lançamentos e as atuações continuam até ao final da década, sendo um dos destinos, em 1969, Buenos Aires. Mantendo-se fieis ao elevado ritmo de trabalho, gravam rapidamente um pequeno álbum de originais em castelhano. Com 12 temas em pouco mais de 25 minutos, Latino está todo centrado nos ritmos latino-americanos. O acompanhamento é da Orquestra de Jorge Leone, sendo editado na Argentina em 1969 e posteriormente em Portugal sob o título Sob O Signo De Yemanjá, acompanhado pelo lançamento de uma selecção de 4 temas num EP, ‘El Fuego Compartido‘ (que curiosamente exclui o tema mais forte do álbum, Muamba, Banana y Cola).

 

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Em plena Avenida 9 de Julho, Buenos Aires, com os sacos da TAP debaixo do braço. Curiosamente, já na capa de Mulowa Afrika aparecia o logotipo da TAP. 

Sob o Signo de Yemanjá (A deusa de todos os Mares. Foi nos braços de Yemanjá, que o ritmo Africano viajou para o Mundo).
O conteúdo deste disco foi forjado num “Churrasco” na quinta do director artístico da Odeon, J. A. Rota, nos arredores de Buenos Aires, quando da nossa estadia na Argentina. Falou-se de África, da Argentina e do que a raça negra trouxe às Américas. Ouvimos Yupanki (um dos maiores folcloristas e compositores argentinos) agora radicado em Paris. Falou-se do Malambo, do Merengue de Cumbia e outros ritmos oriundos de África. Surgiu então a ideia de um Afro-latino-americano. O resultado do “Churrasco” da sangria e do pôr do Sol, estão resumidos nas 12 faixas que vos oferecemos. Destacamos no entanto “Quando cheguei ao Brasil” canção que dedicamos ao primeiro homem negro que chegou à América do Sul. Agradecimentos a toda a juventude que se reuniu naquela tarde de sábado para nos ouvir falar da nossa terra. Abraços especiais a Kapustin e Derlis. A Marfil, esse Colombiano grandão, com ritmo dos pés à cabeça, neto de negro. A Toscano, Febo, Castellon, Loubet, Fernand e Casal o nosso obrigado pelas boas canções. A Yupanki a nossa admiração e respeito ante a sua imensa figura de grande poeta, compositor e sobretudo Argentino. À Argentina com o carinho que dois jovens estrangeiros podem dedicar a um grande e lindo país, dedicamos as nossa canções cantadas em Espanhol cheio de sotaque e de Amor.

[texto da contracapa do LP Columbia 8E 62 40 003, 1970]

Entretanto, com o fechar a década de 60 e com as novas experiências recolhidas um pouco por todo o mundo,  o Duo Ouro Negro prepara-se para se aventurar no seu trabalho de fôlego mais importante…

 

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Duo Ouro Negro 1964-1970 / Discografia Portuguesa – EP’s (Columbia)

#09 SLEM 2170 / 1964 Dominique / Beija-Me / Hava Nagula / Agora Vou Ser Feliz
#10 SLEM 2183 / 1964 Cavaleiro Solitário / Amor Que Partiu / Popotitos / É Verão
#11 SLEM 2189 / 1964 La Mamma / Por Um Chamiço / Alucinado / Nós E O Amor
#12 SLEM 2196 / 1965 Meadowlands / M’Bube / N’Dôa / Mundo D’Iaxala
#13 SLEM 2239 / 1966 Au Revoir Silvye / Banana Boat / E Veio o Vento / Click Song
#14
SLEM 2240 / 1966 O Amor, O Sol E O Mar / Jikele Mauenhi / Garotas Do Porto / Menino De Braçanã
#15
SLEM 2241 / 1966 Dio Come Ti Amo / Kurikutela / Write Again / O Trem das Onze
#16 SLEM 2266 / 1967 Dia das Rosas / A Banda / Belucha / Canção da Despedida* 
#17 SLEM 2270 / 1967 Quando Amanhecer / Livro Sem Fim / Apenas Tu / Mundo Azul
#18 SLEM 2278 / 1967 La Mer Le Vent Le Sable / O Arrastão / Meadowlands
#19 SLEM 2287 / 1967 Kubatokuê Mulata / Palâmie* / Iliza (Gomara Saiá)*/ Maihêtso*
#20
 SLEM 2301 / 1968 Carolina Garota Timpanas Katéria
#21 
SLEM 2313 / 1968 En Suivant L´étoile / Upa Neguinho / Pata Pata / Rita Flor Da Canela
#22
 45ML239 / 1968 Carnaval de Luanda / A Minha Mulata
#23 
SLEM 2327 / 1968 A Cave / Viver Sem Amor / Está Chovendo Cá Fora (Mangwene Npulele) / Barco Sem Rumo
#24 
SLEM 2340 / 1969 Tenho Amor Para Amar / Pobre Pierrot / Cantiga / Mais Uma Dor Mais Uma Canção
#25 
SLEM 2343 / 1969 Maria Rita / Nocturno / A Minha Mulata
#26 
8E 016 40 018 / 1969 Ela… Ela Já Esqueceu / Foste Minha um Verão / Talvez Te Dê uma Rosa / Nem o Cravo, Nem a Rosa
#27
8E 016 40 064 / 1970 El Fuego Compartido** / Henda Xala** / Quando Cheguei ao Brasil** / Zambi**

* Temas retirados de Mulowa Afrika / ** Temas retirados de Latino

 

Duo Ouro Negro 1964-1970 / Discografia Portuguesa – LP’s (Columbia)

# SPMX 5001 / 1966  O Espectáculo É Ouro Negro (compilação)
# SPMX 5005 / 1967  Mulowa Afrikaº
# DF 4393 / 1969 Latino / 8E 062 40 003 Sob O Signo De Yemenjá

º A Columbia alemã edita em 1968 uma compilação com a mesma capa da edição francesa de Mulowa Afrika.

 

Duo Ouro Negro 1964-1970 / EP’s franceses com gravações inéditas em Portugal

# ESRF 1 633 / 1965  La Kwela / La Kwela De L’Angola / Heno Vakwe /N’Doa
#
ESRF 1 669 / 1965 Ce Palmier / L’Ocean  / Seul dans Le Monde / La Savane
ESRF 1 856 / 1967 Si tu Revenais / Les Autres / Le Fleuve / Sur Le Chemin de ma Peine

 

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