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Ouro Negro 1971-1975

Posted in Uncategorized by ghostalking on April 29, 2016

CORES

Depois das aventuras pelo novo mundo, o ano de 1970 é de relativa acalmia e preparação do próximo projecto de fôlego do Duo Ouro Negro. Nesta altura a importância dos EPs começa, em Portugal, a perder terreno para a dicotomia LP / Single, que irá marcar as décadas seguintes. É também uma altura de mudanças políticas com Marcelo Caetano a assumir o poder em finais de 1968 (a ilusão de alguma abertura é nos anos seguintes frustradas com o agudizar da guerra colonial, a manutenção da censura e das perseguições por motivos políticos e, por fim, com o abandono da ‘ala liberal’ da Assembleia Nacional). É neste contexto que o Duo Ouro Negro desenha o projecto conceptual Blackground, a ser cantado em português e em inglês.

 

Tri712

 

No verão de 1971 tem lugar o festival de Vilar de Mouros. Inédito em Portugal, o festival estende-se por vários fins de semana, com um fim de semana especialmente dedicado à nova música pop, com destaque para os cabeças de cartaz, Elton John e Manfred Mann. Curiosamente, ou talvez não, fruto dos habituais paradoxos de que a história do duo está recheada, não é neste fim de semana que o duo actua, mas sim, ocupando uma das noites do fim de semana seguinte, com Amália Rodrigues a actuar na seguinte. É assim na noite de 14 de Agosto de 1971 que sobem ao palco os 13 elementos que acompanham o duo nesta primeira apresentação de Blackground, um “espectáculo de duas horas, tendo por tema a apresentação da música angolana, até ao samba ao jazz aos blues.” (António Augusto Barge, revista Rádio & Televisão,  Agosto 1971). O espectáculo será ainda apresentado no Teatro S. Luis em Lisboa reunindo entre músicos, bailarinos e cantores, 35 pessoas (Raul Indipwo, Ouro Negro SRD, 1993).

Africa was unfruitful and dry and Iemenjá was born from the Gods. Iemanjá felt alone and the Gods gave her a son who was born from her navel and that son was called RIVER and the RIVER crossed Africa and it went to the Sea. He crossed the sea and, on the other side, opened his arms and formed other branches and each brach was a new son and each son had a new name: MISSOURI, MISSISSIPI, AMAZON, RIO DE LA PLATA, etc. From the first Tree born in Africa, a ashew-Tree, Iemanjá made a big canoe and put in it the voices of the KUANZA, CONGO, NIGER, ZAMBEZIE, LIMPÔPÔ, and she said: “This is your heart, my Son, and now you are the African Man.” And the RIVER went away singing and the voice was the faith, and the rhythm was the beating of the oars on the water and the SPIRIT was a big MARACA saying“Don’t forget your Blackground”, “Don’t forget your Blackground”, “Don’t forget your Blackground”.

[Raul Indipwo, Blackground / LP 8E 062 40 136, 1972]

 

BlackG

OURO NEGRO blackground BIG

 

Alguns meses depois de Vilar de Mouros, é finalmente lançado o álbum com capa gatefold e um livreto com uma pequena biografia/discografia do grupo.  O álbum é praticamente todo escrito por Raul Indipwo (uma das excepções é N’Vula onde Vum Vum colabora com Milo MacMahon). Para além do trabalho de composição e arranjos, são também uma novidade os quatro músicos que acompanham o duo no disco: Adrien Ransy na bateria (músico belga de formação jazz, integrou entre 1958-1963 os The Cousins, vindo posteriormente para Portugal, integrando o Quinteto Académico de 1966 a 1968 e dos The Bridge em 1971 – um grupo com Kevin Hoidale, Jean Sarbib e Rão Kyao que actua em Vilar de Mouros e no Cascais Jazz desse ano); Terry James Thomas na guitarra (músico inglês, integrou os Objectivo em 1971-72, actuando em Vilar de Mouros e gravando o Single Out of the Drakness em 1972, antes de regressar a Inglaterra); Zé Nabo (músico incontornável, tinha já integrado os Dakota em 1965, Guitarras de Fogo, os Ekos em 1967 -com o pseudónimo Eddy Fróis-, os Showmen em 1968, os Objectivo em 1969-1972, e a Heavy Band 1971-1973, sendo que mais tarde irá colaborar com José Cid, Banda do Casaco, Rui Veloso, Salada de Frutas ou Jorge Palma entre outros); Kevin Watson Hoidale, orgão e piano em 3 temas (músico norte-americano, passou por Portugal e pelos Objectivo 1970-72, colaborando com o Grupo 5 em 1970 e com Paulo de Carvalho, 1971-1974).

A ilustração da capa é da autoria do artista angolano Eleutério Sanches (que assinará outras capas como a do LP Kualuka Kuetu de Bonga em 1981), irmão de Lilly Tchiumba (que já tinha colaborado no musical Rua D’Elisa do duo em 1967 e que lançará em 1975 um magnífico álbum). O álbum como trabalho mais arrojado e acompanhado nesse ano pelo lançamento no mercado de 3 EPs não muito interessantes (Romança da Rainha / Neusa / Hino à Paz), e pela edição do LP Africaníssimo, que recupera temas anteriormente editados, especialmente os gravados com Sivuca em 1960. Entretanto, aproveitando a nova fábrica da Valentim de Carvalho em Angola, são extraídos dois temas do álbum e lançados em 1972 no formato single (Amanhã/Napangula).

 

REE712

Capitalizando o fundo de catálogo: Compilação Africaníssmo (LP, 1971), EP Kyrie – temas de Mulowa Afrika de 1967 (EP, 1972) e reedição da compilação de 1966, O Espectáculo é Ouro Negro (LP, 1972)

 

Devido a extensão do continente africano existem os mais variados aspectos das chamadas «civilizações» e costumes, que surpreendem a cada passo mesmo os que tenham tido já mais que um contacto com África ou até com africanos de regiões diferentes. Uma coisa é comum a todos dado que a progressão do homem africano, além de matemática e geométrica, comparativamente ao homem europeu, é rítmica e musical. O ritmo e a música são uma constante da vida africana, quer nos rituais religiosos, quer nos trabalhos de rotina ou ainda em todas as manifestações sociais colectivas. As chamadas «canções de trabalho» que os escravos cantavam nas colheitas de algodão na América do norte, ou nos engenhos de açúcar e nas roças da América do sul não são mais que canções de «coragem» e marcação do ritmo de trabalho colectivo que ainda hoje se pode ver em África nos «Espirituais», no «Gospel» e no «Soul music» vislumbra-se bem a música ritual religiosa africana, com todos os Orixás, Kalundús e Lembas levados para a América do Sul em Makumbas, Voodoo, Umbandas e manifestações religiosas similares. O Blue em África é chamado «Canção de choro», «Lamento» ou mais generalizadamente «Maracatu». Por isso, os estudos feitos por “Santana” e “Osibisa”, vem absolutamente ao encontro do nosso trabalho em Blackground n.° 1.

[Reedição de Blackground / LP 8E 048 40 308, 1974]

 

construcao

Construção, com os Kalungas 4.

Duo 73

Em 1972 surge uma nova gravação com Construção,  versão do tema de Chico Buarque, originalmente gravada no álbum homónimo de 1971. Neste disco o Duo Ouro Negro é acompanhado pelos Kalungas 4, grupo com quem vão gravar mais dois singles em 1973 (Luanda Luandense e Totoritué). Nos Kalungas 4 mantém-se Zé Nabo que já acompanhava o duo desde Blackground, juntando-se Ricardo Pellegrin na percussão (músico da Guiné-Bissau, irá posteriormente radicar-se no Canadá e usar o nome artístico, El Kady), Lopes Junior na guitarra (músico dos Ekos) e Eduardo Couto também nas guitarras. Em 1974 são reeditados com novas capas os dois álbuns de originais da banda gravados em Portugal, Mulowa Afrika e Blackground, num contexto de abrandamento das edições do grupo, ainda por cima paralelas a uma desinspirada participação no Festival da canção em Março de de 1974. E depois, é Abril.

 

Epopeia Detail
Pormenor da pintura de Raúl Indipwo para Epopeia:
A Baía de Luanda envolta num mar de petróleo, escravos e uma Mãe África?

Com o 25 de Abril o duo, que sempre tinha tentado estabelecer-se num plano internacional, uma espécie de cidadãos do mundo de matriz portuguesa com os pés em África, fica de repente numa terra de ninguém. É apenas em 1975, e já depois do lançamento de mais uma compilação de êxitos, que edita os dois discos que fecham o seu contrato com a EMI-Valentim de Carvalho. O LP lançado é mais um álbum conceptual, ou melhor, um álbum com duas faces temáticas: Epopeia (no lado A) e Lamento do Rei (no lado B). Musicalmente o acompanhamento é dos Kalungas 4.

EpopeiaLAMENTOcapa AllendeCAPA

O Rei está livre novamente. O seu reino liberto é mais contente do que o antigo reino escravizado. O Rei canta e seu canto segue no vento, como seguira antes seu lamento na revolta de um povo agrilhoado. Mas é preciso compreeender agora o termo exacto, a dimensão, a hora da força da canção. Porque não é um Rei que está cantando, é a África toda despertando como poder de Raça e de Nação!

[Lamento do Rei / LP 8E 054 40 353, 1975]

 

A capa de Epopeia mostra uma pintura de Raul Indipwo na linha estética e cromática já mostrada na reedição de Mulowa Afrika. Já a capa de Lamento do Rei (da autoria de António Villar de Souza) mostra um mapa de África como um tabuleiro de xadrez onde a um peão e uma rainha pretas se opõem três peças, uma cujo corpo é um cifrão (encimado por uma coroa) e outras duas encimadas por uma cruz e uma suástica, em mais uma alegoria à libertação dos povos africanos. O single, com o tema mais abertamente politizado do grupo (afinal estávamos em 1975 e tudo procurava ser abertamente politizado), é Poema para Allende, reflectindo mais uma vez as influências da América Latina. E fecha com Tentando ir mais Alto, numa espécie de epílogo para a fase mais arrojada e criativa da discografia do grupo.

 

separadorM
discoV

Duo Ouro Negro 1971-1975 / Discografia Portuguesa – 7″ (Columbia / EMI)

#28 8E 016 40 126 / 1971 Romança Da Rainha / Singing My Song / Estrada Da Vida
#29 
8E 016 40 127 / 1971 Neusa / Kangrima*** / Mana Fatita***
#30 
8E 016 40 137 / 1971 Hino À Paz / Rita Flor De Canela / Distância+
#31 
8E 016 40 145 / 1972 Amanhã** / Napangula**
#32 
8E 016 40 224 / 1972 Construção / Distância+ / Txizengué*
#33 
8E 016 40 225 / 1972 Kyrie* / Maria Provocação* / Afrika (Kaiábula)* / Kuemba Ritôko*
#34 
8E 016 40 289 / 1973 Tótóritué / Vou Indo Por Aí
#35 
8E 016 40 290 / 1973 Luanda Luandense / Kungenu / Kitari Kiamie
#36 
8E 016 40 311 / 1974 Bailia Dos Trovadores / Vamos Erguer A Vida
#37 
8E 016 40 352 / 1975 Poema Para Allende / Tentando Ir Mais Alto

* Temas retirados de Mulowa Afrika (1967)
** Temas retirados de Blackgrund (1971)
*** Temas retirados dos EPs com Sivuca (1960)
+ Tema editado nestes dois EPs

 

Duo Ouro Negro 1971-1975 / Discografia Portuguesa – LP’s (Columbia / EMI)

# 8E 062 40 129 / 1971 Africaníssimo (compilação)
# 8E 062 40 136 / 1971 Blackground
# 8E 046 40 226 / 1972 O Espectácuilo é Ouro Negro (compilação – reedição)
# 8E 048 40 307 / 1974 Mulowa Afrika (reedição)
# 8E 048 40 308 / 1974 Blackground (reedição)
# 8E 046 40 351 / 1975 O Melhor do Duo Ouro Negro (compilação)
# 8E 054 40 353 / 1975 Epopeia / Lamento do Rei
# 2C 064 40 410 / 1976 Ouro Negro (compilação / edição francesa)

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