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Ouro Negro 1976-2006 / Um longo adeus

Posted in Uncategorized by ghostalking on February 2, 2017

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Anos Orfeu

Na ressaca da Revolução de Abril de 1974 e da Independência de Angola em Novembro de 1975, o duo vê terminada a sua ligação contratual à sua editora de sempre, a Valentim de Carvalho (inicialmente em representação da Columbia e, já em 1974, da EMI). O ano de 1976 surge como um ano de pausa nas edições discográficas, pondo fim a 13 anos de edições ininterruptas. Neste ano apenas sai em França uma derradeira e excelente compilação que junta temas de 1960 gravados com Sivuca com temas extraídos dos álbuns Mulowa Afrika, Blackground e Epopeia/Lamento do Rei -estes dois últimos nunca lançados em França. É ainda no final desse mesmo ano que Milo McMahon abre o seu HIT-Pub (localizado no Bairro das Estacas em Lisboa, hoje ocupado pelo Bar Fadariu’s), que será o ponto de encontro de músicos e amigos nos anos seguintes. 

 

Depois desta segunda pausa na carreira do grupo desde 1963, é na Orfeu de Arnaldo Trindade que voltam aos estúdios, lançando, em 1977, uma primeira amostra do seu próximo álbum com o single Mamã Esperança / Cipriano. No ano seguinte sai mais um single, curiosamente creditado apenas a Raul Indipwo, com os temas Ter Amigos é Fortuna / A bela da Fonte. Apenas em 1979 é finalmente lançado o LP ‘Lindeza!’, que fecha o seu alinhamento com estes quatro temas anteriormente editados nos singles (com Mamã Esperança numa nova versão). ‘Lindeza!’ é um disco sem um produtor creditado, mas com a gravação e misturas a cargo do calejado Moreno Pinto. Nos músicos mantém-se Zé Nabo no baixo, surgindo Mike Sergeant na guitarra, Mário Rui no violão, D’Jilá Jor na guitarra de 12 cordas e ainda José Cid no acordeão (no tema Quando Eu Voltar). A ficha técnica é incompleta e curiosamente o nome de Milo MacMahon não aparece sequer mencionado no disco, surgindo apenas na foto da capa.

 

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O álbum, marcado pela saudade de uma Angola mergulhada numa sangrenta guerra civil, é uma clara partida da sonoridade que vinha a ser desenvolvida nos álbuns mais conceptuais da década de 70, Blackground e Epopeia/Lamento do Rei, isto apesar de ser arrancar com uma sequência muito interessante -e de grande coerência formal- em grande parte do seu lado 1, desde a abertura com N’Gola 1483/Luanda em Novembro até Lindeza!. O resto do disco é um amontoar de canções de nível e estilos variáveis, contendo o famoso Vou Levar-te Comigo (a abrir o lado 2). Fica assim definitivamente encerrada a fase de experimentação do grupo, reduzidos também a uma escala mais local (a Orfeu não tem capacidade para que os seus discos sejam lançados no estrangeiro como tinha a Columbia-EMI). A referência a 1483  assinala o ano da chegada à foz do Rio Congo por Diogo Cão, no fundo, a chegada de Portugal àquilo que viria a ser Angola…

 N’Gola, 1483…
E no horizonte surgiu uma canôa gigantesca com velas brancas, que se aproxima veloz, cada vez mais, com o vento…
Era o Homem Branco que chegava; numa mão uma cruz, na outra uma espada. Nos olhos, um brilho estranho de espanto, de cobiça, de triunfo. Ao som dos Kissanges, marimbas e Txingufos, ele desembarcou, calçando os pés com terra negra.
Então N’Gola viu a sua terra esventrada gritar de dor e transformou-se. Viu seus filhos serem levados para outros mundos. Conheceu uma nova cultura, uma nova violência, a intolerância que se abatia sobre a sua terra.
N’Gola adormeceu um sono longo e agitado, cheia de vozes no peito, crescendo, crescendo tanto que, num alarido despertou… a a Voz dizia:
– Não durmas mais… Não durmas mais…
Era Novembro e as acacias vestiam-se de garrido vermelho.
O Sol vinha a nascer com um brilho novo, sobre a Terra perfumada de Tamarindo e Jambo…
Uma Lindeza.
[Raul Indipwo, 1979]

 

Na sequência deste LP, logo em 1980, surge um single com dois inéditos Luar da Lua Cheia / Amor de Mentira (aqui com direcção musical de Luis Pedro da Fonseca, fundador nesse mesmo ano dos Salada de Frutas), donde se destaca o mais dançante lado B.

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Os dois longa-duração com o selo Orfeu.

Depois deste período de tímida produção, o Duo Ouro Negro chega a 1981 com energias renovadas para um espectáculo no Teatro da Trindade, Império de Iemanjá (espectáculo que terá feito uma tour por outras cidades europeias como Paris). E é com um conjunto alargado de músicos que irão registar o novo duplo álbum Blackground nos estúdios da Rádio Triunfo (da editora Orfeu). Para além do Duo Ouro Negro, os músicos são Steve Neil (baixo), João Maló (guitarra solo), Emilio Robalo (piano), Zézé M’Gambi (Bateria), Terinho M’Umbanda (Órgão), Perikles (Flauta e Sax), o Grupo Raízes (Nelinho, Beto e Mindo nas percussões e Nelson no baixo), Lena d’Agua e Formiga (Coros) e um grupo de dançarinas (Nita, Nénéca, Nikóia, Záza, Izabel, Ivone, Elsa). Marcam ainda presença alguns músicos convidados como a sul africana Busi Mhlongo (no tema Aruanda), o liberiano Otongo Brawn (no tema Aruandaí) ou a guineense Ivette Mandinga. Apesar do título do disco e do texto do encarte (que reproduz o texto já publicado na reedição de 1974 do LP Blackground), musicalmente apenas 4 temas são recuperados do álbum de 1972 (Ondyaya, Yermanjá, Blackground e Amanhã). De resto são 11 temas totalmente novos que compõem o álbum, acompanhados ainda pela nova gravação de dois temas: Muamba, Banana e Cola (agora em português) e Suliram. O trabalho gráfico da Orfeu com os Duo Ouro Negro é muito pobre e executado com grande falta de cuidado. Na lista dos temas deste LP, por exemplo, falta listar um tema (Missanga), Luanda Vou aparece como Luanda Vova e outro tema aparece o título trocado (Missanga em vez de Suliram). Apesar disto, o duplo álbum, tem direito a uma ‘edição limitada’ com mais imagens no interior da capa de abrir.

 

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O álbum mostra o grupo com grande energia e a explorar todas as suas facetas, com espaço para se lançar em temas que cruzam descomplexadamente as tradições africanas com o funk, a soul ou o reggae. Do álbum são extraídos dois dos temas mais fortes para um single: Marmelada / Muamba, Banana e Cola, saindo já em 1982 uma reedição do LP Lindeza! e um último single pela Orfeu (Estou Pensando em Ti / Rapsódia Angolana), cujo lado b é ocupado por um medley que faz uma retrospectiva dos vários êxitos da carreira do grupo.

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Regresso impossível: Aos Nossos Amigos / Sô Santo

Com o fim da relação com a Orfeu, dá-se o regresso à EMI, onde é reeditado em 1982 o primeiro álbum de originais, Mulowa Afrika (com uma nova capa, a terceira das edições portuguesas desse disco). O ano de 1983 é novamente um ano de pausa, exceptuando o lançamento de mais uma compilação de êxitos, O Disco de Ouro. Em 1984 dá-se o regresso às edições de originais com o álbum Aos Nossos Amigos. No disco recuperam-se três temas anteriormente gravados pelo grupo: Ce Palmier (originalmente gravado num dos três EPs franceses doa anos 60), N’Zambi (originalmente gravado para um dos EPs do trio Ouro Negro) e Quando Cheguei ao Brasil (originalmente gravado para o LP Latino/Sob o Signo de Yemanjá, de 1969). A produção fica a cargo de Milo Mac Mahon com os arranjos de Mike Sergeant e o assinalável regresso ao Engenheiro de som que os tinha acompanhado desde a sua estréia discográfica, Hugo Ribeiro. O disco aponta baterias em várias direcções, conseguindo ainda alguns pontos altos, nomeadamente com os dois temas lançados em single Comboio Mala de Benguela/N’Zambi.

Apenas alguns meses depois do lançamento do disco, em Abril de 1985, morre Milo Mac Mahon, fechando-se a história do Duo Ouro Negro. Evitando baixar os braços, Raúl Indipwo, edita ainda em 1985, um primeiro single Meus Olhos Ficaram Mar/À Beira Mar. O seu nome artístico será agora Raul Ouro Negro e vestirá sempre de branco em sinal de luto pelo companheiro desaparecido. Em termos de lançamentos no anos de 1985, a Orfeu relança Vou Levar-te Comigo (em single) e a EMI relança Blackground (o LP sai com uma nova matriz, mas de resto praticamente igual à reedição de 1974).

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Em 1986 Raul Ouro Negro lança o seu primeiro álbum a solo, Sô Santo, voltando a usar músicos que o tinham acompanhado nos anos mais recentes. Apesar do discos não ser especialmente interessante, há alguns temas merecem destaque, como a abertura com Kalunga ou os três temas mais dançantes: Cidrália, Pensamento Voa e Totoritué (numa nova versão deste tema popular que o duo tinha lançado originalmente num single em 1973). O disco fecha com uma melancólica balada, Kassua, uma espécie de despedida de Raul Indipwo. Para a capa mais uma pintura do músico que se dedicava cada vez mais à pintura, A Minha Casa de Benguela.

 

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A Minha Casa de Benguela, pintura da capa de Sô Santo.

 

Epílogo: Meninos D’Oiro

Cinco anos depois deste último álbum, em 1991, Raul Indipwo ainda faz um derradeiro disco, Meninos D’Oiro. O disco editado pela Fundação Ouro Negro (em LP e CD) pretende precisamente divulgar o trabalho da fundação e para o gravar foram convidados alguns amigos do músico como Bonga, Celina Pereira ou Rui Veloso. O disco recupera para uma nova versão o tema Pajarito Mañanero de Latino/Sob o Signo de Yemanjá e fecha com o tema coral, Lunga pelos Afra Sound Stars. Na contracapa Raul aparece na companhia do seu famoso tigre bebé (cuja descendência ainda fará parte do Jardim Zoológico de Lisboa. Uma aparição do músico foi a comemoração dos 50 anos de carreira em Maio de 2005, acompanhado de Bonga, Marisa, Luís Represas e Pedro Jóia. Em Junho de 2006 fecha-se, com a morte de Raul Indipwo um dos capítulos mais enigmáticos e paradoxais da música popular portuguesa, africana, latina, enfim, a catalogação fácil nunca os conseguiu fechar em nenhuma fronteira.

Das inúmeras compilações que continuaram a sair durante as décadas de 1990 e 2000, destaque para duas. Em 1993, sai uma caixa bastante abrangente com 4 CDs (ou cassetes) editada pela Reader’s Digest, acompanhada por um texto sobre a história do grupo da autoria de Raul Indipwo que faz também a pintura da capa. Em 2010 uma ainda fundamental caixa também de 4 CDs onde se compilam grande parte dos temas mais interessantes editados em EP dos primeiros anos do grupo (colaborações com Sivuca e trabalhos em trio) e se editam pela primeira vez em CD praticamente o integral dos LPs Blackground e Epopeia/Lamento do Rei. Infelizmente que, por razões que a razão desconhece, se desperdiçou aqui a oportunidade de fazer um trabalho definitivo sobre os anos mais interessantes do grupo. Com o regresso do interesse no vinil haverá em 2017 mais uma reedição de Blackground (recuperando cuidadosamente todo o trabalho gráfico da edição original). Infelizmente continua muita coisa por escrever, por editar criteriosamente, e claro, por ouvir.

 

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Duo Ouro Negro 1976-1984
/ Discografia 7″

#38 KSAT 603 / 1977 Mamã Esperança / Cipriano+ [Orfeu]
#39 
KSAT 624 / 1978 Ter Amigos É Ter Fortuna+ / A Bela Da Fonte+* [Orfeu]
#40 
KSAT 683 / 1979 Luar Da Lua Cheia / Amor De Mentira [Orfeu]
#41 
TSAT 301 / 1981 Marmelada+ / Muamba, Banana E Cola+ [Orfeu]
#42 TSAT 319 / 1982 Estou Pensando Em Ti / Rapsódia Angolana [Orfeu]
#43 177 5057 / 1984 Comboio Mala De Benguela+ / N’Zambi+ [EMI]
#43 SINP 36 / 1985 Vou Levar-Te Comigo+ / Luar Da Lua Cheia++ [Orfeu]

/ Discografia Álbums

# 8E 068 40487 / 1979 O melhor do Duo Ouro Negro [EMI] (LP)
FPAT 6004 / 1979 Lindeza! [Orfeu] (LP/Cassete)
#
DASPEAT 401 / 1981 Blackground [Orfeu] (2xLP Especial / 2xLP / Cassete)
FP 6004 / 1982 Lindeza! [Orfeu] (LP / reedição)
#
2VCLP 10029 / 1982 Mulowa Afrika [VC] (LP / Cassete / reedição)
#
240 0041 / 1983 O Disco de Ouro [VC] (LP / reedição)
# 1 77 5101 / 1984 Aos Nossos Amigos [EMI] (LP)
#
794 6981 / 1990 O Melhor do Ouro Negro [EMI] (2xLP / CD)


Raúl Ouro Negro 1985-1991
/ Discografia 7″

#44 177 5657 / 1985 Meus Olhos Ficaram Mar / À Beira Mar [EMI]
#45 177 6167 / 1987 Os Olhos De Marylia+ / Kassua+ [EMI]

/ Discografia Álbums

117 76061 / 1986 Sô santo [EMI] (LP/CD**)
#
89 12 03 / 1991 Meninos D’Oiro [Fundação Ouro Negro] (LP/CD)

 

* Lançado apenas em nome de Raúl Indipwo.
** CD inclui os temas do single Meus Olhos Ficaram Mar / À Beira Mar.
+ versões idênticas às do álbum.
++ tema já lançado em single.

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